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Entre trends e transtornos: quando o feed começa a dar diagnósticos.

11 de março de 2026
* * Texto por Pedro Martins, em entrevista à Dra. Shirlene Vianna Moreira, neuropsicóloga.

Entre trends e transtornos: quando o feed começa a dar diagnósticos

Você já assistiu a um vídeo no TikTok que começava assim: “Se você faz isso, você tem TDAH”. Ou aquele carrossel no Instagram: “5 sinais de que você pode ser autista e não sabe”. Se em algum momento você pensou “Nossa… sou eu”, saiba que você não está sozinho.

Nos últimos anos, conteúdos sobre saúde mental e neurodivergência se multiplicaram nas redes sociais. E isso tem um lado muito positivo. Falar sobre ansiedade, TDAH, autismo, depressão e altas habilidades deixou de ser tabu e passou a naturalizar pessoas que vivem dentro desses espectros. A informação ficou mais acessível e as pessoas encontraram identificação, acolhimento e comunidade. 

Só no Brasil, por exemplo, existem 2,4 milhões de pessoas convivendo com transtorno do espectro autista (TEA) segundo o Censo de 2022 do IBGE. Mas, no meio de tanta informação, surgiu também um fenômeno delicado: a banalização dos autodiagnósticos.

Quando o algoritmo vira “consultório”

Segundo a neuropsicóloga, Dra. Shirlene Vianna, é cada vez mais comum que pacientes procurem avaliação já afirmando “Eu tenho TDAH”,  “Sou autista”, “Acho que tenho borderline”. Muitas vezes, essa percepção nasce do consumo de conteúdos curtos e simplificados nas redes. O problema é que vídeos curtos precisam caber no ritmo acelerado do feed. E, para isso, podem causar falhas de comunicação e induzir ao autodiagnóstico.

Assim, aspectos da própria personalidade podem ser confundidos. Por exemplo, uma pessoa muito distraída pode achar que tem TDAH, ou uma pessoa com uma carga muito elevada de trabalho confundir cansaço com burnout. 

A Dra. Shirlene explica que “transtornos neurodivergentes são transtornos advindos do neurodesenvolvimento. A pessoa não fica neurodivergente, mas ela sempre foi. É uma situação que causa grande sofrimento[…]”.

Neurodivergência não é tendência

Quando um diagnóstico é tratado como rótulo de identificação estética ou traço de personalidade “cool”, corre-se o risco de minimizar a experiência de quem convive com desafios significativos no dia a dia.

É diferente dizer “eu me distraio às vezes” e dizer “tenho um transtorno que impacta minha vida acadêmica, profissional, social e emocional de forma persistente.”. Parece sutil, mas é uma diferença profunda.

Mas então… sentir não é válido?

Sentir é sempre válido. Se você se identifica com um conteúdo, isso pode ser um ponto de partida para reflexão e um convite para olhar para si com mais cuidado, como um sinal de que algo merece atenção. O que não é saudável é transformar identificação em diagnóstico automático.

Principalmente quando falamos de públicos jovens. A adolescência e o início da vida adulta são fases intensas de construção de identidade. É natural experimentar, testar, oscilar, se questionar. Nem todo comportamento diferente é um transtorno e nem toda dificuldade é um diagnóstico, explica a neuropsicóloga.

O mais importante é, se tiver dúvidas procure um profissional especializado, como a Clínica Rezende (inserir hiperlink do contato da clínica), por exemplo, e faça uma avaliação neuropsicológica. 

Como funciona uma avaliação neuropsicológica?

Ao contrário do que muitos imaginam, uma avaliação neuropsicológica não é uma conversa rápida com um veredito no final. Ela é um processo estruturado que pode incluir:

A avaliação analisa a pessoa de forma global, suas funções cognitivas, inteligência, personalidade, humor, histórico de vida e contexto familiar. Os testes utilizam parâmetros específicos de acordo com idade e escolaridade.

Além disso, existe uma diferença importante entre comportamento situacional, que oscila conforme contexto, e o sinal clínico persistente e presente em múltiplos ambientes ao longo da história do indivíduo.

Todos esses aspectos precisam ser avaliados através das entrevistas com o paciente e seus familiares, reflete Shirlene. 

Conscientização ou desinformação?

A internet democratizou o acesso à informação sobre saúde mental e isso é valioso. Mas também abriu espaço para conteúdos produzidos por pessoas sem formação clínica ou experiência profissional.

Quando falamos de transtornos, estamos lidando com conceitos técnicos que têm implicações clínicas, sociais e identitárias. Não são apenas “características de personalidade”.

Criadores de conteúdo têm uma responsabilidade ética importante. Conscientizar é informar com cuidado, contextualizar e incentivar a busca por avaliação profissional quando necessário. Quando conceitos são usados de forma imprecisa, o sofrimento real pode ser minimizado. Por isso, vale sempre perguntar: “Quem está falando?” / “Qual é a formação dessa pessoa?” / “Existe base científica?”

Informação não substitui avaliação

Consumir conteúdo pode ampliar repertório e ser um canal para a busca de uma ajuda, mas não substitui avaliação profissional.

Dra. Shirlene aconselha para que, caso tenha dúvida, sofrimento persistente ou impacto significativo na vida, o caminho mais seguro é buscar orientação com psicólogo credenciado pelo Conselho Regional de Psicologia ou encaminhamento médico adequado.

Saúde mental não é trend e diagnóstico não é identidade estética. Cuidar de si exige mais profundidade do que um vídeo curto de 45 segundos.

E talvez o passo mais maduro não seja dizer “eu tenho isso”, mas sim questionar:
“Eu preciso de ajuda para entender melhor o que estou vivendo?” Essa pergunta, sim, pode mudar tudo.

 

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