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Depressão

28 de abril de 2026
* Por Alexandre de Rezende, Psiquiatra.

DEPRESSÃO

Primeiramente, é importante destacar que há uma grande diferença entre tristeza e depressão. A tristeza é uma emoção normal e fisiológica, e principalmente passageira, esperada diante de um evento adverso da nossa vida, surge como consequência a uma perda, uma decepção ou desapontamento, uma lembrança de algo ruim que aconteceu ou mesmo um pensamento não adequado que ativamos de forma automática. Ela tem por objetivo sinalizar a necessidade de recebermos algum tipo de apoio e ajuda, e apontar o quanto aquela situação é desconfortável para nós.

Por outro lado, a DEPRESSÃO é um transtorno complexo, uma síndrome composta por diversos sintomas, que causa grande sofrimento e prejuízo na vida do indivíduo e das pessoas com as quais ele convive. Ou seja, trata-se de uma condição grave que envolve fatores genéticos, psicológicos e ambientais em sua origem.

A Depressão é uma condição psiquiátrica muito frequente. Estima-se que, no Brasil, em torno de 18,4% das pessoas vão ter Depressão ao longo da vida, com idade média de início em torno de 24 anos.

Características do DSM-5*

O Transtorno Depressivo Maior se caracteriza pela presença de alguns sintomas por um período de pelo menos 2 semanas e representam uma mudança em relação ao funcionamento anterior. Os dois sintomas mais importantes são:

  1. Humor deprimido (sentir-se triste, vazio, sem esperança); OU
  2. Perda de interesse ou prazer. 

Além desses, outros sintomas incluem alterações do peso ou apetite, alterações do sono, agitação ou lentidão psicomotora, fadiga, sentimentos de inutilidade ou culpa, diminuição da capacidade para pensar ou se concentrar, pensamentos de morte e ideação suicida.

É importante destacar que esses sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

Ainda há muito estigma sobre um quadro de Depressão, mas esse problema não deve ser entendido como um sinal de fraqueza ou fragilidade na forma de lidar com os problemas da vida, nem mesmo uma condição que se possa facilmente reverter tão somente pela própria força de vontade. A pessoa com Depressão, na maior parte das vezes, precisa de ajuda para conseguir reagir, enfrentar esse transtorno e ter uma melhora significativa.

A importância dos pensamentos numa Depressão

Quando uma pessoa vivencia um quadro depressivo, tem uma maior tendência de avaliar as situações de forma negativista e pessimista, em geral irrealista. Nesse caso, vivencia-se emoções desconfortáveis de modo desnecessário e tende a expressar comportamentos desadaptativos que podem trazer prejuízos.

Os modos distorcidos de pensar costumam envolver um ou mais dos seguintes temas:

Quando algo de ruim acontece em um determinado contexto, o indivíduo com Depressão tende a pensar que em situações semelhantes, o desfecho sempre será igualmente ruim. A mesma lógica não se observa diante de um cenário onde algo bom acontece, pelo contrário o indivíduo que sofre de depressão pode ignorar ou minimizar acontecimentos bons.

As pessoas com Depressão costumam atribuir a si mesmas, de forma não adequada, a maior parte da responsabilidade (culpa) pelas coisas ruins que acontecem consigo ou, até mesmo, com as pessoas ao seu redor. Além disso, tendem a repetir internamente para si mesmas seus fracassos, passam a lembrar em exagero seus erros do passado.

Veja a seguir alguns exemplos de distorções de pensamento comumente presentes em pessoas com Depressão (Beck, 1997):

Após uma tentativa frustrada de conquistar uma pessoa: “Não faço sucesso com mulheres, nunca vou conseguir ficar com ninguém”.

Após ter se dedicado aos estudos e ter conseguido uma excelente nota: “Só tirei essa nota porque a prova estava fácil, o professor facilitou, qualquer pessoa tiraria uma nota boa”.

Ao enfrentar um desconforto em função de uma adversidade momentânea: “Minha vida é assim, isso vai durar para sempre”.

Após ouvir a cobrança do seu chefe, ignorando as várias vezes em que ele ficou quieto ou mesmo elogiou ao ver algo bom acontecendo: “Meu chefe sempre reclama de tudo”.

Ficar repetindo internamente de forma exagerada e inútil pensamentos sobre o passado e deixando de focar em ações práticas que podem favorecer a resolução dos problemas atuais: “Sou todo errado mesmo, deveria ter aproveitado a oportunidade, deveria ter me dedicado mais”.

Após uma interação social que não aconteceu da forma desejada: “Ela não falou comigo porque não tenho carisma, não tenho atrativos”.

É possível questionar esses pensamentos disfuncionais com o intuito de modificá-los, principalmente quando eles não se sustentam por argumentos lógicos e fatos observáveis. A psicoterapia pode ajudar na identificação dos erros de pensamentos que geram sentimentos desconfortáveis. Desse modo, o resultado poderá ser emoções e comportamentos menos prejudiciais.

Ao conseguir desenvolver pensamentos mais realistas frente às situações vivenciadas, é possível reduzir a intensidade de sentimentos desconfortáveis, ou mesmo ter sentimentos diferentes e, por conseguinte, reações comportamentais menos prejudiciais.

O modo de pensar é muito importante em nossas vidas, inclusive no que se refere às expectativas que temos em relação ao futuro. Expectativas realistas e positivas costumam gerar motivação para a ação, o que pode favorecer a concretização dos planejamentos.

Como o problema pode estar sendo mantido?

Quando estamos vivendo uma situação qualquer, podemos ativar pensamentos, reações fisiológicas, comportamentos/atitudes e emoções. Mesmo sem saber ao certo qual será ativado primeiro, quando qualquer um dos quatro aspectos é ativado, os outros três inevitavelmente também serão.

Diante de um ambiente com fatores estressores, algum evento de vida importante, uma perda, uma condição de saúde, um rompimento familiar, a pessoa tende a desenvolver pensamentos de desamparo, desamor ou menos-valia (“nada dá certo na minha vida”, “ninguém gosta mesmo de mim”, “minha vida sempre será de sofrimento”). Isso vai levar a sentimentos de tristeza, desalento, vazio, irritação e culpa. Então, serão esperadas reações fisiológicas disfuncionais, como alterações de sono e apetite, redução de libido, redução da ativação de neurotransmissores (como serotonina e noradrenalina). Como consequência, a pessoa pode tomar decisões inadequadas, como desistir de um projeto, não se cuidar, evitar o contato com as pessoas.

É essencial aprender a lidar com todas essas variáveis. Deve-se estabelecer intervenções nesses aspectos visando a mudança dos fatores mantenedores da Depressão. Então, se a ativação de uma das quatro variáveis inevitavelmente ativa as outras três, a mudança “positiva” de uma delas também afetará “positivamente” aquelas restantes.

Por exemplo: diante de uma nota ruim na faculdade, uma pessoa pode pensar automaticamente que nunca será capaz de terminar seu curso. Daí passa a ficar triste e se lembrar de todas as vezes que vivenciou um fracasso na sua vida. Terá redução do apetite, o sono ficará prejudicado por ficar remoendo tudo o que já aconteceu de errado com ela, e deixará de sair com os amigos. Uma outra alternativa, agora mais saudável, será pensar que todo mundo pode estar num dia ruim e não tirar uma nota boa. Pode analisar que terá outras oportunidades e que, de uma próxima vez, será possível melhorar seu desempenho, até mesmo porque no passado já teve outras notas boas.

Como uma pessoa posso lidar com a Depressão?

A Depressão é um transtorno no qual há uma baixa de energia e disposição que dificulta a realização das tarefas. Envolver-se nas atividades do dia a dia pode parecer “sem graça” ou “sem propósito”.  Entretanto, é justamente a ação que favorece o aumento da motivação para uma ativação adequada da disposição. É comum o paciente com Depressão trazer o discurso de que precisa ter energia para fazer algo, quando é o contrário, é preciso fazer algo para se ter mais energia. É o que chamamos de ativação comportamental, e falamos um pouco mais sobre isso logo abaixo.

Assim, começar com alguns “pequenos passos” é essencial, utilizando-se a energia e os recursos que estiverem à disposição. Caso você esteja com Depressão, pode não estar com muita energia, mas provavelmente pode ter o suficiente para fazer, por exemplo, uma pequena caminhada no quarteirão de casa ou pegar o telefone para falar com um amigo.

Nesse contexto, o indivíduo deve ter cuidado para não se cobrar demais ou criar muitas expectativas. Deve-se criar metas que serão executadas sem maiores dificuldades. No início, possivelmente a pessoa não fará tudo a que se propõe. Deve-se manter o foco nas suas ações, buscando conduzir uma atividade de cada vez. Um ponto importante é, ao realizar uma tarefa, tentar se recompensar por cada realização bem-sucedida.

O indivíduo com Depressão pode ter o processo de recuperação favorecido pelo suporte social, ou resgaste dos vínculos interpessoais. O terapeuta pode incentivar o paciente a construir relacionamentos íntimos e de confiança. A busca por um tratamento farmacológico pode ser necessária em alguns casos. O tratamento conjunto tende a ser uma boa opção para a superação da Depressão.

Com a psicoterapia, é possível desenvolver estratégias para lidar melhor com os problemas associados à Depressão. Estratégias que auxiliem no questionamento das interpretações distorcidas e favoreçam a mudança dos pensamentos disfuncionais para mais adaptativos serão essenciais para melhorar a autoestima, a autoconfiança e aumentar a ativação comportamental.

Além das estratégias citadas, a pessoa com sintomas depressivos pode obter benefícios com a utilização de algumas práticas. Há inúmeros estudos que apontam que meditação, yoga, atividade física regular, prática da religiosidade e espiritualidade podem reduzir sintomas de depressão.

Ativação comportamental: é uma estratégia própria da terapia cognitivo-comportamental, mas que pode ser perfeitamente utilizada na Psicoeducação.

A ativação comportamental busca incentivar a pessoa deprimida a realizar atividades significativas e prazerosas que provavelmente foram abandonadas nesse período, mesmo sem uma motivação inicial. O paciente sempre vai dizer que está sem ânimo e sem energia, mas o foco deve estar na ação como forma de melhorar o humor, ao invés de esperar a vontade surgir. A lógica é “agir para se sentir melhor” – ou seja, o comportamento vai preceder a mudança de humor.

O objetivo da ativação comportamental é romper o ciclo da evitação e aumentar o contato com reforçadores positivos do ambiente. O primeiro passo é identificar as atividades prazerosas que a pessoa deixou de fazer por desânimo ou tristeza (como ir à academia, ver um filme, sair com amigos, visitar familiares) e tentar a retomada isso, mesmo que inicialmente isso lhe pareça sem graça.

Sugestão de leitura: Vencendo a depressão: manual de terapia cognitivo-comportamental para pacientes e terapeutas. Autores: Daniela Tusi Braga, Analise de Souza Vivian e Ives Cavalcante Passos. Editora Artmed, 2019.

* DSM-5-TR Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais – 5ª edição, Texto Revisado. Publicado em 2023, é um manual elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria para auxiliar no diagnóstico dos transtornos mentais.

Referência bibliográfica:

Este texto foi baseado na seguinte referência:

COSTA, R.T. Capítulo 8 – Depressão. In: CARVALHO, M.R.; MALAGRIS, L.E.N.; RANGÉ, B.P. Psicoeducação em Terapia Cognitivo-Comportamental. – Novo Hamburgo: Sinopsys, 2019.

 

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