Crianças desatentas e com dificuldade na escola? Entenda o impacto silencioso das telas na aprendizagem
Nem sempre se trata de um transtorno, muitas vezes, as dificuldades estão relacionadas ao contexto ambiental, à rotina da criança e a fatores pedagógicos.
No contexto da clínica psicopedagógica, têm sido cada vez mais frequentes as queixas relacionadas à desatenção, dispersão e dificuldade na retenção de conteúdos escolares. Tais manifestações, frequentemente, suscitam a hipótese de transtornos do neurodesenvolvimento. No entanto, uma análise criteriosa evidencia que, em muitos casos, essas dificuldades podem estar relacionadas a fatores do contexto ambiental e à organização da rotina da criança.
A avaliação psicopedagógica, nesse cenário, assume um papel fundamental, pois não se restringe à identificação de possíveis indicativos clínicos, mas busca compreender o modo singular de aprender do sujeito, considerando a integração entre aspectos cognitivos, emocionais e contextuais. Conforme destaca Nádia Bossa, trata-se de um processo investigativo amplo, voltado à identificação de potencialidades e dificuldades, com vistas à construção de intervenções mais assertivas.
A partir dessa perspectiva, apresenta-se uma situação vivenciada em consultório, na qual a criança (aprendente) foi encaminhada com queixa principal de dificuldade de concentração, dispersão frequente e baixa retenção de informações. Observou-se, ainda, comprometimento na atenção sustentada, associado a desinteresse pelas atividades escolares e desmotivação para frequentar a escola. Segundo relato materno, a criança demonstrava preferência significativa por permanecer em casa utilizando o celular, em detrimento das demandas acadêmicas e da vivência escolar.
Durante o processo avaliativo, foram observadas dificuldades no desempenho de funções executivas, especialmente na memória de trabalho e no controle inibitório. Tais manifestações evidenciaram-se por meio de agitação motora, dificuldade em manter-se em uma mesma atividade por períodos mais prolongados, elevada suscetibilidade a estímulos distratores e limitação na retenção de informações recém-apresentadas, evidenciada pela dificuldade em manter conteúdos logo após a explicação da professora.
No levantamento de dados realizado por meio da anamnese, identificou-se um padrão de uso intenso de dispositivos eletrônicos, especialmente no período noturno, com exposição prolongada a conteúdos digitais de alta estimulação e rápida alternância. Tal padrão mostrou-se associado à desorganização da rotina de sono, resultando em cansaço, sonolência diurna e redução do engajamento nas atividades escolares. Considerando a análise do contexto e o respaldo da literatura, esse fator foi compreendido como uma variável relevante na dinâmica das dificuldades apresentadas.
A literatura científica tem apontado que a exposição excessiva a estímulos digitais, especialmente quando associada à ausência de mediação adequada e à desorganização da rotina, pode estar relacionada a dificuldades no desenvolvimento e no desempenho das funções executivas, conjunto de habilidades cognitivas responsáveis pelo controle da atenção, autorregulação e organização do comportamento. De acordo com Adele Diamond, funções como memória de trabalho, controle inibitório e atenção são essenciais para o desempenho acadêmico. De modo complementar, Russell A. Barkley destaca que dificuldades nessas funções podem impactar a capacidade de manter o foco, seguir instruções e organizar ações no contexto escolar.
Além disso, o uso de telas, especialmente no período noturno, pode comprometer a qualidade do sono, aspecto fundamental para os processos de consolidação da memória e da aprendizagem, conforme apontam diretrizes de organismos internacionais de saúde, como a Organização Mundial da Saúde, bem como recomendações de entidades pediátricas, como a American Academy of Pediatrics.
Diante desse contexto, foi iniciado o acompanhamento psicopedagógico, envolvendo a reorganização da rotina da criança, orientação familiar quanto ao estabelecimento de limites no uso de dispositivos eletrônicos e intervenções específicas voltadas ao fortalecimento das funções executivas, especialmente atenção sustentada, memória de trabalho e controle inibitório. Ressalta-se a importância de uma atuação interdisciplinar, quando necessária, considerando a complexidade dos fatores envolvidos no processo de aprendizagem.
Destaca-se que as observações apresentadas referem-se ao contexto da avaliação psicopedagógica, não configurando, isoladamente, definição diagnóstica, mas contribuindo para a compreensão funcional das dificuldades no processo de aprendizagem.
Esse caso reforça a importância de um olhar técnico, sensível e ampliado sobre as dificuldades escolares. Nem sempre estamos diante de um transtorno; muitas vezes, aspectos do cotidiano, especialmente relacionados ao contexto ambiental, à rotina e ao uso excessivo de telas, exercem impacto significativo no desenvolvimento cognitivo e emocional da criança.
Minha atuação clínica fundamenta-se em uma avaliação psicopedagógica criteriosa, detalhada e embasada em referenciais teóricos consolidados, incluindo a utilização de protocolos desenvolvidos por Nádia Bossa, uma das principais referências da psicopedagogia no Brasil. Isso possibilita a compreensão aprofundada do perfil de aprendizagem e a construção de intervenções individualizadas e eficazes.
Se você tem observado em seu filho dificuldades de atenção, esquecimento frequente, desmotivação escolar ou resistência em frequentar a escola, é fundamental investigar de forma adequada. A avaliação psicopedagógica pode ser um importante passo para compreender essas dificuldades e direcionar intervenções assertivas e responsáveis.
Agende uma avaliação e compreenda, de forma técnica e cuidadosa, como apoiar o desenvolvimento da aprendizagem.
BARKLEY, Russell A. Executive functions: what they are, how they work, and why they evolved. New York: Guilford Press, 2012.
BOSSA, Nádia A. A psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.
DIAMOND, Adele. Executive functions. Annual Review of Psychology, Palo Alto, v. 64, p. 135–168, 2013.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. Geneva: WHO, 2019.
AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Media and young minds. Pediatrics, Elk Grove Village, v. 138, n. 5, e20162591, 2016.
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