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Dor de cabeça: o que seu corpo está tentando dizer (e você precisa ouvir)

10 de junho de 2026
* Texto por Pedro Martins, em entrevista à Dra. Mariana Beber Chamon, neurologista.

Dor de cabeça: o que seu corpo está tentando dizer (e você precisa ouvir).

Depois de um dia corrido, uma noite mal dormida ou uma semana mais estressante, é comum sentir um incômodo aparecer, aquela dor de cabeça rotineira, velha companheira, mas que por ser tão frequente, muita gente acaba encarando a dor como algo normal, quase como um efeito colateral inevitável da vida moderna. Mas existe uma diferença importante entre ter dor de cabeça de vez em quando e conviver com ela constantemente.

Quando as crises começam a se repetir, interferem nos compromissos do dia a dia, afetam o trabalho, os estudos, os momentos de lazer ou até mesmo as relações pessoais, o problema deixa de ser apenas um desconforto passageiro. E nesses casos, a dor passa a impactar diretamente a qualidade de vida e merece atenção.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as cefaleias estão entre os distúrbios neurológicos mais comuns do mundo. A organização ainda estima que cerca de 40% da população mundial sofre com esse incômodo que atinge desde crianças até idosos. Ainda assim, muitas pessoas convivem com o problema por anos sem receber um diagnóstico adequado ou um tratamento realmente eficaz. 

Em parte, isso acontece porque a dor de cabeça foi normalizada. Afinal, quem nunca ouviu alguém dizer um “é só uma dorzinha, já vai passar”. Segundo a neurologista Dra. Mariana Chamon, especialista em Distúrbios do Movimento e Neurologia Cognitiva e Comportamental, esse é justamente um dos principais sinais de que algo merece atenção. “Algumas pessoas apresentam dores de cabeça que se tornam tão intensas, ou tão frequentes, que impactam sua rotina. Passam a restringir a realização de algumas tarefas por medo de desencadear crises, atrapalhando suas relações sociais, ocasionando perda de dias de trabalho ou prejudicando sua produtividade”, explica.

Essa percepção faz com que muitas pessoas procurem ajuda apenas quando a situação já está afetando seriamente a rotina. Não é raro que pacientes cheguem ao consultório relatando dores quase diárias, uso frequente de analgésicos e várias tentativas frustradas de tratamento. Com o tempo, algumas até passam a acreditar que terão que aprender a viver assim. E, na verdade, não precisa ser dessa forma.

Mas e a rotina?

A vida que levamos hoje também tem uma participação importante nessa história. O excesso de estímulos, a pressão constante, as notificações que não param de chegar, as noites curtas de sono e a alimentação feita às pressas criam um cenário perfeito para o surgimento ou agravamento das dores de cabeça.

No caso da enxaqueca, um dos tipos de cefaleia, esses fatores costumam funcionar como verdadeiros gatilhos, de acordo com a especialista. Uma sequência de noites mal dormidas, um período mais intenso de estresse ou até mesmo passar muitas horas sem se alimentar podem ser suficientes para desencadear uma crise. Por isso, o tratamento vai muito além dos remédios, é preciso entender a rotina, identificar padrões e fazer alguns ajustes nos hábitos também faz parte do processo.

Mas como saber quando a dor de cabeça merece uma investigação mais cuidadosa?

Dra. Mariana explica que existem alguns sinais que funcionam como alertas, como “dores de cabeça de início recente, ou que se modificaram ao longo do tempo, que são muito frequentes ou muito intensas, com uso constante de analgésicos, o surgimento de uma cefaleia em uma pessoa que já apresenta outros problemas de saúde, em especial as doenças autoimunes. Também devemos ficar de olho em outros sintomas que possam surgir de forma associada, como perda de peso, dormências e vertigem.” 

Isso não significa que toda dor de cabeça seja sinal de algo grave, o que esses sinais indicam é que vale a pena investigar para entender exatamente o que está acontecendo.

“Ai, tô com uma enxaqueca danada”

Entre os diversos tipos de cefaleia, a enxaqueca continua sendo uma das principais responsáveis pela busca por atendimento médico. Além da dor, que pode ser bastante incapacitante, ela pode vir acompanhada de outros sintomas que tornam as crises ainda mais difíceis de enfrentar, por exemplo, sensibilidade à luz, aos sons, náuseas e dificuldade para manter as atividades normais são algumas das queixas mais frequentes.

Muitas pessoas também carregam uma preocupação silenciosa durante as crises, a dúvida sobre a possibilidade de a dor estar relacionada a algo mais sério. É justamente por isso que o diagnóstico correto faz tanta diferença.

Ao contrário do que muita gente imagina, a investigação da dor de cabeça nem sempre começa com exames, grande parte das informações necessárias surge durante a conversa com o neurologista. “A diferenciação dos tipos de dor de cabeça é feita durante a avaliação por um médico neurologista, a partir de dados históricos do paciente, como as características da dor, exame neurológico, e em alguns casos, são necessários exames complementares.” – segundo Dra Mariana Chamon. 

Entender como a dor começou, qual é sua frequência, onde ela aparece, quanto tempo dura e quais sintomas a acompanham ajuda a construir o diagnóstico de forma bastante precisa. E a boa notícia é que hoje existem diferentes formas de tratamento e controle para as cefaleias.

Os exames complementares podem ser necessários em algumas situações específicas, principalmente quando existem sinais de alerta ou quando o médico precisa descartar outras causas para o sintoma, mas, na maioria das vezes, o histórico do paciente continua sendo uma das ferramentas mais importantes para identificar o tipo de cefaleia e definir o melhor tratamento.

Vale a pena viver com dor só pra fugir do médico?

No fim das contas, viver com dor de cabeça frequente não deve ser encarado como algo normal. Eu mesmo, redator deste texto, morro de medo de médicos e sempre fujo quando posso, mas entendo que não é algo correto para mim e para os meus. Se a dor está mudando sua rotina, limitando seus planos ou fazendo parte dos seus dias com mais frequência do que deveria, procurar ajuda especializada pode ser o primeiro passo para recuperar qualidade de vida. 

E nada de automedicação! Pode ser tentador buscar alívio imediato, mas tomar analgésicos por conta própria pode agravar o quadro e dificultar o diagnóstico real. Priorize sua saúde e busque sempre a orientação de um profissional! 

Sentir dor de cabeça de vez em quando pode acontecer, já aprender a conviver com ela como se fosse parte da sua identidade é uma história que não precisa continuar sendo escrita.

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