Em setembro, o amarelo aparece nas campanhas, nas redes sociais, nas empresas, nas escolas e até nas conversas que, durante o resto do ano, muitas vezes ficam para depois. O Setembro Amarelo coloca a prevenção ao suicídio no centro da discussão e abre espaço para questionar por que falar sobre saúde mental parece mais fácil nessa época.
O sofrimento emocional, afinal, não escolhe mês.
Ansiedade, depressão, solidão, luto, esgotamento, mudanças importantes na vida e tantas outras experiências podem atravessar uma pessoa em qualquer época do ano, e nem sempre quem está sofrendo chega a dizer que precisa de ajuda. Às vezes, as emoções aparecem como irritação, isolamento, alterações no sono, perda de interesse pelas coisas que antes faziam sentido ou simplesmente aquela sensação persistente de que está difícil dar conta de tudo.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho dessa conversa. A Pesquisa Nacional de Saúde realizada pelo IBGE em 2019 mostrou que 10,2% dos brasileiros com 18 anos ou mais haviam recebido diagnóstico de depressão por um profissional de saúde mental, aproximadamente 16,3 milhões de pessoas. O percentual havia sido de 7,6% em 2013. Entre as pessoas que relataram diagnóstico de depressão, 18,9% fizeram psicoterapia no período pesquisado.
É importante lembrar que esses números não representam o Brasil de 2026, e a razão para isso é que o país está realizando agora sua primeira Pesquisa Nacional de Saúde Mental. Iniciada em março deste ano, a pesquisa já passou por 197 municípios de 26 estados e pretende reunir aproximadamente 10 mil entrevistas para investigar transtornos mentais, sofrimento psíquico, condições sociais e econômicas e acesso ao cuidado.
Enquanto essa nova fotografia não fica pronta, os dados que já temos mostram que falar de saúde mental não é tratar de um assunto distante ou restrito a quem recebeu um diagnóstico. É falar de uma dimensão da vida que pode afetar relações, trabalho, estudos, rotina, sono, alimentação, autoestima e a maneira como cada pessoa enxerga o próprio futuro. E quando falamos especificamente em prevenção ao suicídio, a conversa ganha outra dimensão.
O suicídio é um importante problema de saúde pública e, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 727 mil pessoas morreram por esse motivo no mundo em 2021. A OMS também aponta que o autoextermínio está entre as principais causas de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.
No Brasil, o Ministério da Saúde registrou 15.507 mortes por suicídio em 2021, de acordo com a série apresentada em seu boletim epidemiológico. Os números reforçam que a prevenção não pode ser pensada apenas como uma ação de setembro, mas como parte permanente do cuidado em saúde.
A campanha foi incorporada ao calendário brasileiro pela Associação Brasileira de Psiquiatria e pelo Conselho Federal de Medicina, que passaram a promover ações em conjunto a partir de 2014. O dia 10 de setembro é marcado como o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, porém, a própria campanha ressalta que suas ações acontecem durante todo o ano.
Talvez essa seja uma das mensagens mais importantes que podemos levar para os outros meses: prevenção não é esperar alguém chegar ao limite para então perguntar se está tudo bem, é prestar atenção antes.
É perceber mudanças em quem está próximo, criar espaços onde falar sobre sofrimento não seja motivo de vergonha, entender que pedir ajuda não precisa ser o último recurso depois de todas as outras alternativas falharem e também reconhecer os próprios limites.
Cuidar da saúde mental não significa necessariamente esperar que exista um diagnóstico ou uma crise. Assim como fazemos consultas médicas, exames e acompanhamos sinais do corpo antes que um problema se agrave, também podemos olhar para aquilo que acontece dentro da nossa cabeça antes que o sofrimento se torne insuportável.
A própria Organização Mundial da Saúde reforça que as necessidades relacionadas à saúde mental são grandes em todo o mundo. Em relatório publicado em 2025, a entidade estimou que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com algum transtorno mental e destacou que a maior parte delas ainda não recebe cuidados adequados.
Talvez a pergunta certa não seja “por que só falamos disso em setembro”, e sim “o que nos impede de falar disso o ano inteiro”. A resposta provavelmente tem a ver com o mesmo estigma que a campanha tenta quebrar.
E se quiser continuar essa conversa para além da sala de terapia, tem gente boa cuidando desse assunto o ano todo! A série Shrinking, da Apple TV+, mostra terapia com humor e sem julgamento, o podcast Psicologia na Prática, com a psicóloga Alana Anijar, traz reflexões leves pro dia a dia, e o livro ‘Pega Leve!’, do Davi Lago, é um convite gostoso pra desacelerar.
Se você ou alguém próximo estiver passando por uma situação de sofrimento intenso ou risco de suicídio, procure ajuda profissional e os serviços de emergência disponíveis. O CVV também oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia.
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