Há seis anos, escrevi que a vida era um mosaico.
Naquela época, eu havia perdido meu pai e, como tantas outras pessoas, tentava compreender um mundo que de repente se tornara estranho e perigoso. A pandemia nos colocava diante de uma incerteza coletiva, enquanto cada um carregava suas próprias perdas, histórias e esperanças.
Foi um texto para o e-book da Clínica Rezende que me fez organizar em palavras uma imagem que já vinha tomando forma dentro de mim: a vida como um mosaico. Escrevi sobre os pedaços que nos compõem, alguns feitos de sofrimento, outros de contentamento. Sobre como, mesmo quando tudo parece desmoronar, pequenas coisas continuam acontecendo. E terminei perguntando: “Então… como você vai montar seu mosaico?”
Eu não imaginava que continuaria fazendo essa pergunta a mim mesma por tantos anos. A metáfora passou a acompanhar minhas reflexões, as palavras que compartilho e até algumas conversas no consultório. Tornou-se uma maneira de lembrar que nenhuma experiência, por mais intensa que seja, conta sozinha toda a história de uma vida.
Vieram outros anos. Alegrias que eu não poderia prever. Dores que, se pudesse escolher, jamais teria conhecido.
Em julho de 2022, reencontrei minha mãe e estranhei seu olhar vago. Ela perguntou pela Anna, minha gata. Cinco minutos depois, perguntou novamente, como se fosse a primeira vez. Naquele instante, algo ruiu. A mulher mais autônoma que eu conhecia começava a perder a memória recente. Era o Alzheimer entrando em nossa história, compondo nosso mosaico.
Minha vida virou de cabeça para baixo. O mundo, entretanto, continuou funcionando com uma naturalidade quase inconveniente, enquanto eu tentava descobrir como viver aquela mudança.
Mas o mosaico tem dessas coisas: nem todas as peças que chegam carregam uma única cor. Com o tempo, até algumas situações difíceis passaram a nos render boas risadas. Outro dia, minha irmã encontrou mais de vinte bilhetinhos com o telefone de um colega do centro-dia que minha mãe frequenta. Descobrimos o enredo: todos os dias ela anuncia que “amanhã vou embora para São Paulo”. O amigo, que também tem Alzheimer, fica triste com a despedida e lhe entrega o telefone para que ela ligue. No dia seguinte, começa tudo outra vez. Um romance de despedidas diárias, com uma coleção de telefones e dois protagonistas que não desistem um do outro.
Isso não diminui a dor de vê-la mudar. Mas me ensinou, de maneira muito concreta, que tristeza e alegria não precisam disputar espaço. Podem existir no mesmo dia, às vezes na mesma conversa. Não há uma fila organizada em que primeiro sofremos e depois voltamos a viver. Acontecem ao mesmo tempo.
Em 2020, eu buscava sentido para perdas individuais e coletivas. Hoje, percebo com mais clareza que o mosaico não é uma figura que montamos uma vez e deixamos pronta. As peças se deslocam, outras chegam, algumas mudam de cor. Há as que não escolhemos, as que desejamos e não vêm, e aquelas que continuam conosco de um jeito diferente.
Penso no meu pai. Quanto mais o tempo passa, mais encontro influência dele em mim. Especialmente o humor. Às vezes, desconfio que herdei tanto que ele ainda encontra um jeito de fazer graça por meu intermédio.
Nem sempre escolhemos as cores que chegam. Nem sempre sabemos onde colocar cada peça. Há momentos em que precisamos conviver com um desenho que ainda não compreendemos. Não sei se meu mosaico ficou mais bonito. Sei que ficou diferente e que nele cabem, ao mesmo tempo, saudades profundas e uma gratidão imensa pela vida que continua acontecendo.
Escrevo estas linhas durante uma viagem, entre conversas, aprendizagens, paisagens e a surpresa de reencontrar uma ideia antiga. Neste ano, a Clínica Rezende completou sete anos; faço parte dessa história desde o começo. Gosto de pensar que um texto feito há seis anos deu forma a uma imagem que não parou de se transformar comigo.
A mulher que escreveu aquele primeiro texto continua aqui. Mas há também tudo o que ela ainda não tinha vivido e tantas peças por chegar.
Há seis anos, perguntei como você montaria seu mosaico. Hoje, deixo outra pergunta:
E quando a vida muda as peças, o que acontece com a história que conta sobre você mesmo?
Este texto dá continuidade a “A vida como um mosaico”, publicado em 2020 no e-book de reflexões sobre a pandemia da Clínica Rezende. Para ler o e-book gratuito, clique aqui para fazer o download.
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