A sala de espera do consultório das terapias - Clínica Rezende

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A sala de espera do consultório das terapias

24 de agosto de 2026
* Por Lívia Rinco, psicóloga infantil.

Assim que eu chego de manhã cedo na sala de espera do local onde trabalho me deparo com muitas cadeiras. Ao subir as escadas e chegar na sala de atendimento, vejo mais cadeiras. Todas elas diferentes: as pequenas e coloridas para as crianças, as grandes para os adultos e as da sala de espera com uma parte acolchoada. São simples cadeiras ou sofás, não há nada demais nelas, a não ser pelo fato de todos os dias diferentes crianças ou pais as usarem e, uma simples cadeira, ser algo carregado de diversos tantos afetos.

As cadeiras pequenas nas salas de atendimento, onde uso todos os dias com as crianças, muitas vezes pode ser algo que elas não gostam. Uma criança não quer ficar sentada por muito tempo fazendo atividades. Criança quer correr, pular, brincar, conhecer o mundo e, a cadeira, passa a ser espaço limitador, apesar de ser também espaço de aprendizado. Espaço de aprendizado, pois sem esses simples objetos, algumas habilidades tão essenciais não são alcançadas, como escrever, compreender seus sentimentos e se autoperceber no mundo. Entretanto, passa a ser um espaço limitador, quando eu paro de explorar o mundo à minha volta e permaneço no mesmo lugar. A cadeira, então, muda de função dependendo também da maneira como eu a utilizo no momento da terapia.

As cadeiras maiores, em que muitas vezes são usadas pelos pais, já possuem outro significado: pode ser algo preocupante, pois esperam ouvir sobre o processo terapêutico de seu filho; pode ser frustrante, quando não escutam o que esperavam e, ainda, pode estar carregado de desafeto, quando a raiva bate na porta, e afeto, quando é percebido que a criança está apresentando evolução ou quando são escutados.

As cadeiras da sala de espera podem ser usadas pelas crianças que, ao ter que esperar por mim, podem ficar agitadas, com preguiça, apressadas e, na maioria das vezes, não usadas por elas. Imagino que o significado da cadeira para os pais seja totalmente diferente: pode ser o lugar de encontro com os outros pais ou pode ser solitário. Talvez, esse momento que esperam é o único da semana que podem ficar em silêncio refletindo sobre a vida ou que conseguem compartilhar o que sentem com pessoas que passam pelas mesmas coisas, mas pode ser solitário, pois muitas vezes as angústias do cotidiano podem aparecer e engolir todos os pensamentos.

A minha cadeira é giratória, pois assim como a cadeira, preciso ser flexível e propor ‘’giros’’ na vida das crianças com novas formas de se perceber, de compreender suas emoções e até mudar comportamentos. Esses giros acabam atingindo as famílias que são orientadas e transformadas. Além dessa flexibilidade, minha cadeira também é carregada de afetos: apreensão se estou sendo a melhor profissional que poderia e felicidade quando vejo bons resultados. É lugar de inquietude, pois sempre estou balançando nela pensando em um novo jogo ou brinquedo para trabalhar um objetivo específico com uma criança, um novo plano terapêutico e o que dizer em um relatório.

Um simples objeto pode ser lugar de ocupação de tantos sentimentos e afetos, todos únicos para cada pessoa. No final do dia, quando vou embora, o que ocupam essas cadeiras? Cada uma volta a ser apenas uma cadeira desocupada para novos pensamentos chegarem ou continuam sendo lar em espera para acolher outra história?

Mas afinal de contas, esse texto não é só sobre cadeiras e afetos, foi escrito pensando nos pais que, provavelmente, serão meus leitores. É para que saibam que o processo terapêutico está carregado de afetos e desejos quem quer que esteja ocupando esse espaço, mas que não precisa e nem deve ser solitário, pois caminharemos juntos nessa jornada. E o mais importante, vocês podem compartilhar todos esses sentimentos comigo que vou ajudar seus filhos, mas também vocês que são essenciais para que o processo terapêutico seja efetivo. Vamos juntos nessa jornada?

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