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Isso começou no estômago ou na cabeça?

30 de junho de 2026
* Texto por Pedro Martins, em entrevista à psicóloga Laís Helena e ao nutricionista Felipe Barreto.

Isso começou no estômago ou na cabeça?

Entender o comer emocional é também compreender como emoções, afeto e alimentação caminham juntos em todas as fases da vida.

Poucos países transformam comida em linguagem como o Brasil. A gente marca encontro na padaria da esquina, resolve assuntos importantes na mesa da cozinha, assiste aos jogos da Copa do Mundo comendo petisco e tomando cerveja, recebe visitas perguntando “já almoçou?” e demonstra carinho insistindo em mais uma colherada. 

Por aqui, comer quase nunca é apenas uma necessidade biológica, envolve memória, celebração, cuidado e afeto. Talvez seja justamente por isso que, nos momentos difíceis, a comida também apareça como uma tentativa de conforto.

Depois de um dia complicado no trabalho, daquele término inesperado ou de uma semana que pareceu durar um mês inteiro, quem nunca procurou um doce, um hambúrguer ou aquele prato favorito para tentar aliviar a tensão? Se a cena parece familiar, respire tranquilo, porque isso, por si só, não significa que exista um transtorno alimentar.

O problema começa quando a comida deixa de ser um refúgio ocasional e passa a ser a única resposta para aquilo que sentimos.

Nem toda fome nasce no estômago

Para a psicóloga Laís Helena, recorrer à comida em momentos difíceis faz parte da experiência humana e está tudo bem! “A comida ocupa esse papel para a maioria das pessoas, e isso não é um problema, desde que ela não seja a única estratégia para lidar com esses sentimentos.” – explica.

Em outras palavras, comer um brigadeiro depois de um dia estressante não é, necessariamente, um sinal de alerta. O que merece atenção é quando a alimentação passa a substituir conversas, descanso, lazer, autocuidado ou qualquer outra forma de lidar com emoções como ansiedade, tristeza, estresse ou frustração. É nesse momento que psicologia e nutrição passam a caminhar lado a lado.

O nutricionista Felipe Barreto explica que uma das formas mais simples de começar a perceber esse comportamento é fazendo uma pequena pausa antes de comer.

“Isso começou no estômago ou na cabeça?” A pergunta parece simples, mas pode revelar muita coisa. Segundo o nutricionista, a fome física costuma surgir aos poucos e aceita adaptações. Quem está realmente com fome provavelmente troca o arroz pelo macarrão sem grandes problemas. Já a fome emocional costuma chegar de repente, acompanhada de urgência e de um desejo muito específico. “Preciso de chocolate agora”, “só aquele lanche vai resolver”. E, mesmo depois de comer, a sensação de vazio muitas vezes continua ali.

E quem assistiu a Divertida Mente, da Disney, provavelmente se lembra de como cada emoção tenta assumir o controle da central de comando. Na vida real, porém, nem sempre conseguimos identificar quem está apertando os botões.

Ansiedade, tristeza, medo, frustração ou solidão nem sempre recebem um nome antes de aparecerem em forma de vontade de comer. E quando não entendemos o que estamos sentindo, a comida acaba ocupando esse espaço porque oferece uma recompensa rápida para o cérebro.

Laís Helena explica que isso acontece porque buscamos maneiras de amenizar esse desconforto sem necessariamente compreender sua origem, tendo como desafio ampliar o repertório de estratégias para lidar com ele e não eliminá-lo. Assim, “o primeiro passo é reconhecer que as emoções desagradáveis fazem parte da vida, senti-las é fundamental, e não precisamos “anestesiá-las” comendo ou fazendo outras coisas.” Dar nomes aos sentimentos, já pode ser um primeiro passo para aprender a lidar com eles. E entender que essa fome também não é constante, e que ela pode e vai passar, é fundamental para esse aprendizado, reflete Laís.

Uma fase especialmente delicada

Se o comer emocional pode aparecer em qualquer idade, existe um período da vida em que ele merece atenção especial: a adolescência.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), um em cada sete adolescentes entre 10 e 19 anos convive com algum transtorno relacionado à saúde mental. No Brasil, o Ministério da Saúde também tem registrado um aumento da procura por serviços voltados ao cuidado emocional de crianças e adolescentes, reforçando a necessidade de olhar para esse tema de forma integrada.

É justamente nessa fase que acontecem mudanças hormonais, construção da identidade, busca por pertencimento, influência das redes sociais e uma avalanche de descobertas. 

O nutricionista Felipe Barreto explica que o cérebro adolescente ainda está desenvolvendo mecanismos importantes de regulação emocional e “quando a comida vira a principal maneira de autorregulação nessa fase, existe o risco de esse padrão chegar à vida adulta bastante enraizado.”

Laís complementa que, além das transformações naturais da idade, questões relacionadas à autoestima, aos padrões de beleza, ao pertencimento e até à descoberta da sexualidade podem intensificar a ansiedade e a insegurança. “Durante a adolescência, há uma busca maior por autonomia, construção da identidade, além de uma maior influência dos pares e da mídia e por isso as mudanças emocionais, físicas e sociais são muito intensas. Os hábitos alimentares podem ser um exemplo dessas transformações e as mudanças podem se manifestar de diferentes formas.” 

Nesses momentos, a comida pode tentar assumir uma função que nunca foi dela, o de preencher vazios emocionais.

Quando o feed também influencia o prato

Se antes as comparações aconteciam no recreio da escola, hoje ela cabe no bolso. Corpos considerados perfeitos, rotinas impecáveis, desafios alimentares e promessas de transformação em poucos dias aparecem na tela em questão de segundos.

Segundo Laís Helena, essa exposição constante pode gerar insatisfação com a própria imagem, diminuir a autoestima e prejudicar a relação com a alimentação, a ponto que “a pressão social para atingir padrões estéticos […] a busca por novidades e a impulsividade, são características típicas dos adolescentes e podem favorecer escolhas alimentares menos saudáveis, consumo de dietas da moda ou uso de substâncias para controle de peso.”

Do ponto de vista nutricional, Felipe entende que essa “pressão típica da adolescência (bullying) e a construção da imagem corporal criam um terreno fértil para ciclos de culpa e compensação que podem evoluir para compulsão ou restrição crônica. E esses são fatores de risco para transtornos alimentares.”

 

Justamente nesse período em que a identidade está sendo construída, identificar precocemente sinais de desafios emocionais pode ajudar a transformar padrões comportamentais nocivos à saúde que poderiam acompanhar a pessoa por toda a vida.

Da adolescência ao envelhecimento, emoções também mudam de cardápio

E na vida adulta não é diferente! O comer emocional costuma aparecer entre reuniões, prazos apertados e situações do cotidiano, e não por acaso, aquele pedido de delivery no fim de um dia exaustivo muitas vezes tem mais relação com o cansaço do que com a fome. Já no envelhecimento, a relação com a comida também pode mudar.

Solidão, aposentadoria, luto, alterações no paladar, perda de autonomia e mudanças na rotina são fatores que podem interferir tanto no apetite quanto na forma como a alimentação participa da vida emocional.

Ao mesmo tempo, manter hábitos alimentares equilibrados se torna um dos pilares do envelhecimento saudável. Hoje, diversas pesquisas mostram que uma boa alimentação contribui não apenas para prevenir doenças crônicas, mas também para preservar memória, cognição, autonomia e qualidade de vida.

Se na infância e na adolescência a alimentação ajuda a construir o desenvolvimento do corpo e do cérebro, na terceira idade ela também ajuda a preservar a independência e o bem-estar.

Quando é hora de procurar ajuda?

E é importante frisar novamente que nem todo episódio de comer emocional exige tratamento, o sinal de alerta aparece quando isso deixa de ser exceção e passa a ser regra.

Para Laís, quando a alimentação se torna a única forma de lidar com emoções difíceis, acompanhada por culpa, vergonha, sensação de perda de controle ou mudanças importantes no comportamento, como comer escondido, evitar refeições em grupo ou viver em constante compensação alimentar, aí sim é o momento de buscar ajuda.

Felipe acrescenta que o impacto costuma ultrapassar a alimentação “quando esses episódios começam a afetar o sono, o desempenho, os relacionamentos e a autoestima de forma constante, é o momento de buscar acompanhamento.” E esse cuidado funciona melhor quando diferentes profissionais caminham juntos.

Como explica o nutricionista, reorganizar a alimentação sem olhar para as emoções faz com que o padrão volte a se repetir. Da mesma forma, trabalhar apenas o aspecto emocional sem reconstruir a relação com a comida também mantém o ciclo.

Cuidar da relação com a comida também é cuidar da saúde.

Talvez seja justamente por termos uma relação tão afetiva com a alimentação que falar sobre comer emocional seja um assunto delicado. A comida continuará sendo uma fonte de prazer, de memória e de afeto, mas é importante entender que ela não resolve sozinha aquilo que só pode ser acolhido quando conseguimos reconhecer o que estamos sentindo. E às vezes o que parece fome é apenas uma emoção pedindo para ser ouvida.

Por isso, neste mês de conscientização sobre o comer emocional, a Clínica Rezende reforça a importância de olhar para a alimentação de forma integral. Quando o cuidado reúne diferentes especialidades, fica mais fácil compreender não apenas os sintomas, mas também as histórias, emoções e hábitos que fazem parte de cada paciente. E se precisar de ajuda, conte com a gente!

 

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