Luto não é "Game Over": O guia para acolher crianças na hora da perda. - Clínica Rezende

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Luto não é “Game Over”: O guia para acolher crianças na hora da perda.

6 de abril de 2026
* Texto por Pedro Martins, em entrevista à Lesiane Almeida, psicóloga infantil.

Perder alguém que amamos é como se o mundo, de repente, sofresse um “glitch” bizarro. Para os adultos, o chão foge, mas para uma criança a visão é diferente. A ideia é como se as regras do jogo mudassem sem aviso prévio, gerando um impacto emocional intenso e desorganizador.

Mas como falar sobre isso sem transformar a conversa em um bicho de sete cabeças? Vamos conversar sobre como acolher os pequenos nesse momento.

Como lidar com a perda repentina?

Sabe quando o Homem-Aranha perde o Tio Ben ou a Tia May? É um choque que muda tudo. Segundo a Neuropsicóloga Lesiane Almeida, quando uma perda acontece de forma inesperada, como em um acidente, a criança perde o que ela tem de mais precioso, a sensação de que o mundo é um lugar previsível e seguro. “Nesse contexto, ocorre uma ruptura na percepção de segurança e previsibilidade do mundo, o que pode gerar angústia, tristeza profunda e insegurança.”, comenta a profissional.

Diferente de nós, elas não tiveram tempo para se preparar emocionalmente. Isso gera um estado de confusão, medo e até desamparo, porque a rotina de proteção foi quebrada abruptamente.

Fases do luto

Para entender o luto, pense na série WandaVision (2021), da Marvel. A protagonista, Wanda ou Feiticeira Escarlate, passa por todas as fases durante a narrativa do programa: negação (criando uma realidade perfeita para ela), raiva, negociação, depressão e, finalmente, aceitação. No luto infantil, essas fases também aparecem, mas nem sempre em ordem. Estudiosos da área, como a doutora em Psicologia Clínica, Maria Helena Pereira Franco, nos lembra que o luto não é uma linha reta que termina com o “esquecimento”, mas um processo de reconstruir significados. Não se trata de “superar”, mas de aprender a viver com uma nova configuração de vida.

E é importante entender que uma criança não é um “mini-adulto”, sua compreensão sobre o fim da vida muda conforme ela cresce. As menores podem achar que a morte é algo reversível ou temporário. Já crianças maiores começam a entender que a morte é universal e irreversível. Por isso, Lesiane aponta que a comunicação precisa ser ajustada ao nível de desenvolvimento de cada uma. E um ponto fundamental é prestar atenção em como a criança está se comunicando.

Sinais de alerta sobre o comportamento infantil

Assim como nos adultos, a comunicação corporal é fundamental para entender esse momento, mesmo que a criança não fale o que está sentindo verbalmente. “Alterações no sono e apetite, irritabilidade, isolamento, dificuldades escolares, regressões e aumento da dependência são sinais comuns. O brincar também pode revelar o processo de luto, com repetição de temas relacionados à perda.” – aponta Lesiane Almeida.

A Estratégia dos Ibejis

No culto Yorubá, existe uma história muito antiga (um itã) que ilustra bem esse poder do brincar. Dizem que os Ibejis, os Orixás gêmeos divinos, venceram a Iku, a Morte, não com força, mas com música e ritmo. No itã, as divindades crianças eram muito travessas, mas salvaram sua comunidade ao tocarem seus tambores sem parar para distrair a morte que passava pela região. Enquanto um descansava, o outro tocava. A Morte, tentando acompanhar aquela dança infinita, acabou exausta e desistiu, prometendo deixar as crianças em paz.

Essa história nos ensina que a alegria e a ludicidade da criança não são um sinal de que ela “não se importa”, mas sim a forma como ela reafirma a vida e enfrenta o medo. O brincar é o tambor da criança batendo contra o silêncio da perda.

E qual o melhor jeito de dialogar?

A Neuropsicóloga Lesiane Almeida afirma que a verdade é o melhor caminho. O “pensamento mágico” pode fazer a criança achar que é culpada pelo ocorrido “eu briguei com ele e por isso ele se foi”. Frases como “ele foi viajar” ou “virou estrelinha” devem ser evitadas, pois podem causar uma confusão enorme e medo de que outras pessoas que viajam nunca mais voltem. Estabelecer uma linguagem clara, honesta e concreta, validar o que ela sente, como frases como “Tudo bem estar triste, eu também estou com saudade” pode ajudar a criança a entender melhor sobre o momento que está vivendo.

Quando pedir ajuda?

O luto é uma reação esperada, mas se o sofrimento for persistente e impedir a criança de brincar, estudar ou interagir por muito tempo, é hora de procurar ajuda profissional, com locais preparados para auxiliar nesses momentos tão difíceis, como a Clínica Rezende, por exemplo. Sinais como isolamento prolongado, comportamentos auto lesivos ou prejuízo funcional importante são alertas de que a elaboração está difícil demais para enfrentar sem um psicólogo ou neuropsicólogo.

O vínculo que permanece

Lesiane Almeida afirma que “a rede de apoio — família, escola e pessoas próximas — desempenha um papel fundamental nesse processo. Manter uma rotina estruturada contribui para a sensação de segurança. A escola deve estar informada para compreender possíveis mudanças no comportamento e desempenho da criança. O alinhamento entre os adultos envolvidos é essencial para garantir um ambiente acolhedor e consistente.”

No fim, o importante é manter o cuidado e acolher, para que as crianças cresçam com traumas em decorrência. O luto infantil exige paciência e, acima de tudo, presença disponível.

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