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Terapia é coisa de maluco?

11 de setembro de 2026
* Texto por Pedro Martins, em entrevista à psicóloga Vívian Hauck.

Terapia é coisa de maluco?

“Eu não preciso de terapia.” Talvez você já tenha dito essa frase, pensado nela ao ouvir alguém contar que começou um acompanhamento psicológico ou tenha crescido escutando que terapia era “coisa de quem tem problema”, como se entrar em um consultório fosse praticamente admitir que alguma coisa deu muito errado na vida.

Durante muito tempo, cuidar da saúde mental carregou esse estigma. A pessoa que procurava um psicólogo ou psicanalista podia ser vista como fraca, desequilibrada ou incapaz de resolver os próprios problemas. Enquanto isso, quem conseguia “dar conta de tudo” ganhava uma espécie de medalha invisível de independência. Porém, dar conta de tudo sozinho é mesmo sinal de inteligência emocional?

Para a psicanalista Vívian Hauck, essa ideia de autossuficiência é uma ilusão. Afinal, ninguém começa a vida sozinho. Um bebê depende de alguém para comer, se proteger, ser cuidado e até para aprender a reconhecer o próprio mundo. E essa dependência não desaparece magicamente quando chegamos à vida adulta.

“Recorrer a outras pessoas, pedir ajuda em determinadas situações, significa também reconhecer as próprias limitações e dificuldades. Todos nós as temos”, explica Vívian. Talvez inteligência emocional tenha muito menos a ver com nunca precisar de ninguém e muito mais com saber quando é hora de dividir o peso.

“Eu resolvo tudo” e o “não consigo sozinho”

A cultura da autossuficiência tem um primo bem próximo, a ideia de que depender emocionalmente de alguém é sempre um problema.

Basta uma rápida passada pelas redes sociais para encontrar vídeos, testes e conselhos sobre “dependência emocional”, “apego”, “relacionamentos tóxicos” e maneiras de se tornar uma pessoa cada vez mais independente. Em alguns discursos, qualquer necessidade de apoio parece virar sinal de fraqueza.

Para Vívian, existe uma diferença importante entre esses extremos, onde de um lado, está a pessoa que acredita precisar resolver absolutamente tudo sozinha e, do outro, alguém que coloca todas as decisões, desejos e vontades nas mãos de outra pessoa e se sente completamente desamparado quando está longe dela. Mas é importante lembrar que entre esses dois polos existe uma vida inteira.

“É como incluir o outro, pedir ajuda quando necessário e suportar as diferenças, sem que isso signifique abrir mão da própria vida e dos próprios desejos”, explica a psicanalista. Talvez seja justamente aí que exista uma ideia mais saudável de inteligência emocional.

E se eu descobrir coisas que não quero descobrir?

Olhar com mais cuidado para a própria história e perceber que algumas respostas podem estar relacionadas a experiências antigas, padrões repetidos ou escolhas difíceis de reconhecer pode ser muito difícil. Existe uma vulnerabilidade envolvida.

E ninguém precisa chegar à primeira sessão com a vida inteira organizada em tópicos, como se fosse fazer uma noite do PowerPoint com os amigos sobre os próprios traumas. Segundo Vívian, falar sobre aquilo que é difícil também faz parte do próprio processo. Não é necessário contar tudo de uma vez. A possibilidade de falar vai sendo construída ao longo do tempo, conforme a pessoa consegue encontrar palavras para aquilo que vive.

“Falar do que é difícil, desconfortável ou de situações traumáticas pode ser doloroso, mas é também uma via para reconstruir a própria história e para experienciar a vida de outra maneira”, afirma.

“Já fiz terapia e não funcionou”

Também existe quem tenha tentado e não gostou. Talvez a primeira experiência tenha sido desconfortável, não tenha se estabelecido uma boa conexão com o profissional, até mesmo a abordagem não fizesse sentido para aquela pessoa. Ou talvez simplesmente não fosse o melhor momento para se abrir.

Uma experiência ruim pode criar a sensação de que terapia não funciona, só que uma primeira tentativa frustrada não precisa ser o ponto final. A vida mesmo é cheia de experiências que de primeira parecem apavorantes e depois são mais tranquilas, como a primeira ida ao dentista.

Vívian lembra que não existem garantias de que a primeira sessão será perfeita ou de que o primeiro profissional será aquele com quem a pessoa vai construir um processo, “se fazer uma análise ou uma terapia é mesmo o que se deseja, é importante tentar de novo”, afirma.

Isso também ajuda a entender por que escolher um profissional envolve mais do que pesquisar avaliações na internet. Conhecer minimamente as diferentes abordagens, buscar referências e entender o que se procura pode ajudar, mas o encontro entre paciente e profissional também importa.

É importante também tomar cuidado com o famoso “não funciona para mim”. Esperar que todo processo terapêutico produza o mesmo resultado, no mesmo tempo e da mesma forma seria transformar uma experiência profundamente singular em uma espécie de tutorial de cinco passos.

Quem dera se fosse tudo possível de resolver como no filme Click. Não dá pra avançar, voltar e pular. “Quer-se tudo pra ontem e funcionando a todo vapor”, observa Vívian. Mas existe uma razão para o processo terapêutico ter outro ritmo, pois aquilo que incomoda hoje muitas vezes foi construído ao longo de muito tempo. Segundo a psicanalista, a própria ansiedade por resultados pode entrar no processo terapêutico e ser escutada. Não é preciso esperar ficar completamente tranquilo para começar a terapia, a pressa também pode virar assunto.

E pode até parecer que o Dr. Google vai resolver…

Mas não vai! Buscar informação ajuda a diminuir preconceitos, conhecer diferentes abordagens e entender que procurar um profissional pode fazer parte da vida de muita gente, mas ela não pode ser um substituto da experiência.

Saber explicar um sintoma não significa necessariamente compreender o que ele representa na própria vida. Assistir a cinquenta vídeos sobre ansiedade também não transforma automaticamente alguém em especialista em si mesmo.

Vívian chama atenção justamente para esse ponto, de quando acumular informação passa a funcionar como uma tentativa de resolver tudo sozinho, a internet pode acabar reforçando a mesma autossuficiência que dificulta a procura por ajuda.

Terapia precisa ser o caminho de todo mundo?

E virou modinha transformar terapia em uma espécie de obrigação contemporânea. “Faça terapia” virou conselho para praticamente tudo, mas ela não precisa ser apresentada dessa maneira para fazer sentido.

Para Vívian, existem diferentes maneiras de viver e lidar com as questões da vida. Há pessoas que passam a vida sem entrar em um consultório psicológico e encontram maneiras de elaborar suas experiências, e outras que encontram nela um espaço importante de reflexão e cuidado. Não se trata de uma obrigação, mas de uma escolha.

Mas essa escolha esbarra em outro fator decisivo: o acesso. O custo de um acompanhamento pode ser uma barreira real para muitas pessoas, e quando a saúde mental é tratada como algo disponível apenas para quem pode pagar, o preconceito ganha ainda mais força, como se um tratamento desse tipo simplesmente “não fosse para” quem tem dificuldades financeiras.

Vívian pondera, no entanto, que existem caminhos possíveis dentro dessa realidade. Atendimento psicológico pela via pública, clínicas-escola, coletivos e profissionais no âmbito privado que ajustam o valor do atendimento considerando a realidade socioeconômica de cada paciente. Ainda assim, para a psicanalista, investir na criação e na ampliação de clínicas públicas segue sendo uma aposta importante, para que mais pessoas possam escolher se querem ou não fazer um tratamento sem que a condição financeira decida por elas.

Então, terapia é para mim?

Talvez a pergunta inicial esteja errada. “Terapia é coisa de maluco?” pertence a uma época em que falar de saúde mental era cercado de vergonha, medo e preconceito. Hoje, nos cabe fazer perguntas bem mais interessantes, como “Por que procurar ajuda?”

A terapia não precisa ser uma sentença, um atestado de incapacidade ou uma promessa de felicidade permanente. Pode ser uma escolha, um espaço para pensar, falar, escutar e construir outras possibilidades para aquilo que está sendo vivido — e talvez o primeiro passo nem seja marcar uma consulta, seja apenas permitir se questionar com honestidade sobre “como eu estou, de verdade?”.

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