O Peso da Culpa vs. O Prazer de Comer: O que a ciência nos ensina sobre a nossa relação com o prato?

Um estudo clássico realizado pelo psicólogo Paul Rozin, da Universidade da Pensilvânia, revelou uma diferença cultural profunda sobre como enxergamos a comida.

Por Felipe Barreto, nutricionista

Um estudo clássico realizado pelo psicólogo Paul Rozin, da Universidade da Pensilvânia, revelou uma diferença cultural profunda sobre como enxergamos a comida.  Ao apresentarem a imagem de um bolo de chocolate para americanos e franceses, os pesquisadores notaram respostas opostas: enquanto os americanos associaram a imagem imediatamente à “culpa”, os franceses a associaram à “celebração”. Essa descoberta acendeu um alerta sobre como a nossa mentalidade, não apenas o nutriente isolado, impacta diretamente o nosso comportamento alimentar e a nossa saúde global.

Essa dicotomia revela o que chamamos de “estresse nutricional”. Nos Estados Unidos, a comida passou a ser vista como um conjunto de componentes perigosos (gorduras, açúcares, calorias), transformando o ato de comer em um campo de batalha moral.

Paradoxalmente, os franceses, que priorizam o prazer, a qualidade da experiência e as refeições compartilhadas, apresentavam historicamente melhores indicadores de saúde cardiovascular e menores índices de obesidade. O segredo tinha muito mais a ver com uma relação mais leve e equilibrada com o bolo do que com a ausência dele.

No meu trabalho como nutricionista da Clínica Rezende, vejo diariamente como essa

“mentalidade da culpa” sabota o bem-estar dos pacientes. Quando rotulamos um alimento como “proibido” ou “pecado”, geramos uma ansiedade que, ironicamente, nos leva ao descontrole. O comer emocional e os episódios de exagero muitas vezes nascem dessa restrição cognitiva. Se você come um pedaço de bolo sentindo-se culpado, você não saboreia, não percebe a saciedade e acaba buscando mais comida para anestesiar o desconforto emocional daquela experiência.

A minha missão como profissional é justamente resgatar a autonomia e a paz à mesa.

Acredito que a nutrição de verdade acontece quando aliamos a ciência dos alimentos com a consciência do comportamento. Ao praticarmos a atenção plena, aprendemos a distinguir a fome física da fome emocional e, principalmente, a silenciar o julgamento crítico que nos impede de desfrutar de momentos sociais e afetivos. Comer deve ser um ato de autocuidado e nutrição.

Ao mudarmos a forma como olhamos para o “bolo de chocolate”, mudamos também a nosso consumo e a nossa relação com o corpo. Afinal, uma vida saudável não deve ser baseada em restrições rígidas, mas sim aquela onde o prazer e a saúde caminham lado a lado.

Referência Bibliográfica

Rozin, P., Fischler, C., Imada, S., Saris, A., & Wrzesniewski, A. (1999). Attitudes to food and the role of food in life in the U.S.A., Japan, Flemish Belgium and France: A survey. Appetite, 33(2), 163-180. https://doi.org/10.1006/appe.1999.0244

A diferença entre alimentos saudáveis e nutritivos

* Por Felipe Barreto

A diferença entre alimentos saudáveis e nutritivos. O que você não sabe, mas precisa saber.

Quando rotulamos os alimentos como saudáveis e não saudáveis caímos em uma dicotomia que atrapalha mais do que ajuda.

Isso não significa que não exista alimentos mais nutritivos do que outros, um ovo é claramente mais nutritivo do que um copo de refrigerante. A questão é quando usamos apenas o critério dos nutrientes para definir o que vamos comer.

Certa vez eu estava almoçando na casa de minha mãe, e de canto de olho, observei o quanto de azeite (era muito, mesmo) que ela colocava na salada, admito que fiquei assustado, mas preferi não comentar nada na hora. Mais tarde fui perguntar o porquê dela colocar aquela quantidade de azeite, e sabe o que ela me respondeu? “Porque é saudável, não?”.

Entende o perigo de colocar o rotulo de saudável no alimento e achar que por ser saudável, eu posso comer o quanto eu quiser ou “quanto mais melhor”?

Mas afinal, azeite é saudável ou não? Depende da quantidade, afinal é um gordura e gordura tem muita energia (kcal), isso pode aumentar e muito a quantidade calórica diária. Então você deve ter medo de azeite? Não, está tudo bem temperar a sua salada ou refogar o seu frango, porém, o raciocínio nunca deve ser “quanto mais melhor”.

Colocar o rótulo de saudável em um alimento não deve te dar carta branca para consumi-lo em excesso ou de maneira irresponsável.

O mesmo acontece com os doces ou alimentos recreativos (pizza, hambúrguer…), se você julga como proibido ou não saudável, é esperado que você talvez tente eliminar ele da sua vida, o que seria improvável de acontecer (caso você goste desses alimentos).

Você não precisa tentar parar de comer esses alimentos que tem funções sociais, emocionais, e sim tentar comer com menos frequência e intensidade. A única maneira de isso acontecer é se você melhorar a sua relação com esses alimentos, e sabe uma ótima maneira de começar a fazer isso?

Diminuindo os rótulos/julgamento com a comida.

Sei que não é uma tarefa fácil, afinal de contas vemos diariamente nas redes sociais todos os tipos de terrorismo nutricional: Açúcar mata, tal comida é um veneno, se comer carboidrato à noite você vai engordar, entre tantos outros posts “clicáveis”.

Não existe nenhum alimento isolado que é capaz de trazer grande prejuízo isoladamente, o que pode te trazer problemas no longo prazo é sim uma alimentação desequilibrada, desorganizada, associada a uma vida sedentária.

Precisamos parar de colocar a culpa em um alimento especifico (alô, doce!), e começar a olhar para a alimentação com a importância que ela merece para além de só seguir uma dieta.