Depressão

A DEPRESSÃO é um transtorno complexo, uma síndrome composta por diversos sintomas, que causa grande sofrimento e prejuízo na vida do indivíduo e das pessoas com as quais ele convive.

* Por Alexandre de Rezende, Psiquiatra.

DEPRESSÃO

Primeiramente, é importante destacar que há uma grande diferença entre tristeza e depressão. A tristeza é uma emoção normal e fisiológica, e principalmente passageira, esperada diante de um evento adverso da nossa vida, surge como consequência a uma perda, uma decepção ou desapontamento, uma lembrança de algo ruim que aconteceu ou mesmo um pensamento não adequado que ativamos de forma automática. Ela tem por objetivo sinalizar a necessidade de recebermos algum tipo de apoio e ajuda, e apontar o quanto aquela situação é desconfortável para nós.

Por outro lado, a DEPRESSÃO é um transtorno complexo, uma síndrome composta por diversos sintomas, que causa grande sofrimento e prejuízo na vida do indivíduo e das pessoas com as quais ele convive. Ou seja, trata-se de uma condição grave que envolve fatores genéticos, psicológicos e ambientais em sua origem.

A Depressão é uma condição psiquiátrica muito frequente. Estima-se que, no Brasil, em torno de 18,4% das pessoas vão ter Depressão ao longo da vida, com idade média de início em torno de 24 anos.

Características do DSM-5*

O Transtorno Depressivo Maior se caracteriza pela presença de alguns sintomas por um período de pelo menos 2 semanas e representam uma mudança em relação ao funcionamento anterior. Os dois sintomas mais importantes são:

  1. Humor deprimido (sentir-se triste, vazio, sem esperança); OU
  2. Perda de interesse ou prazer. 

Além desses, outros sintomas incluem alterações do peso ou apetite, alterações do sono, agitação ou lentidão psicomotora, fadiga, sentimentos de inutilidade ou culpa, diminuição da capacidade para pensar ou se concentrar, pensamentos de morte e ideação suicida.

É importante destacar que esses sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

Ainda há muito estigma sobre um quadro de Depressão, mas esse problema não deve ser entendido como um sinal de fraqueza ou fragilidade na forma de lidar com os problemas da vida, nem mesmo uma condição que se possa facilmente reverter tão somente pela própria força de vontade. A pessoa com Depressão, na maior parte das vezes, precisa de ajuda para conseguir reagir, enfrentar esse transtorno e ter uma melhora significativa.

A importância dos pensamentos numa Depressão

Quando uma pessoa vivencia um quadro depressivo, tem uma maior tendência de avaliar as situações de forma negativista e pessimista, em geral irrealista. Nesse caso, vivencia-se emoções desconfortáveis de modo desnecessário e tende a expressar comportamentos desadaptativos que podem trazer prejuízos.

Os modos distorcidos de pensar costumam envolver um ou mais dos seguintes temas:

  • Interpretações sobre acontecimentos

Quando algo de ruim acontece em um determinado contexto, o indivíduo com Depressão tende a pensar que em situações semelhantes, o desfecho sempre será igualmente ruim. A mesma lógica não se observa diante de um cenário onde algo bom acontece, pelo contrário o indivíduo que sofre de depressão pode ignorar ou minimizar acontecimentos bons.

  • Autoavaliação excessivamente ruim

As pessoas com Depressão costumam atribuir a si mesmas, de forma não adequada, a maior parte da responsabilidade (culpa) pelas coisas ruins que acontecem consigo ou, até mesmo, com as pessoas ao seu redor. Além disso, tendem a repetir internamente para si mesmas seus fracassos, passam a lembrar em exagero seus erros do passado.

Veja a seguir alguns exemplos de distorções de pensamento comumente presentes em pessoas com Depressão (Beck, 1997):

  • Conclusão precipitada

Após uma tentativa frustrada de conquistar uma pessoa: “Não faço sucesso com mulheres, nunca vou conseguir ficar com ninguém”.

  • Menosprezar o positivo

Após ter se dedicado aos estudos e ter conseguido uma excelente nota: “Só tirei essa nota porque a prova estava fácil, o professor facilitou, qualquer pessoa tiraria uma nota boa”.

  • Exagero

Ao enfrentar um desconforto em função de uma adversidade momentânea: “Minha vida é assim, isso vai durar para sempre”.

  • Visão em foco

Após ouvir a cobrança do seu chefe, ignorando as várias vezes em que ele ficou quieto ou mesmo elogiou ao ver algo bom acontecendo: “Meu chefe sempre reclama de tudo”.

  • Aprisionar-se no passado

Ficar repetindo internamente de forma exagerada e inútil pensamentos sobre o passado e deixando de focar em ações práticas que podem favorecer a resolução dos problemas atuais: “Sou todo errado mesmo, deveria ter aproveitado a oportunidade, deveria ter me dedicado mais”.

  • Trazendo para si toda a responsabilidade

Após uma interação social que não aconteceu da forma desejada: “Ela não falou comigo porque não tenho carisma, não tenho atrativos”.

É possível questionar esses pensamentos disfuncionais com o intuito de modificá-los, principalmente quando eles não se sustentam por argumentos lógicos e fatos observáveis. A psicoterapia pode ajudar na identificação dos erros de pensamentos que geram sentimentos desconfortáveis. Desse modo, o resultado poderá ser emoções e comportamentos menos prejudiciais.

Ao conseguir desenvolver pensamentos mais realistas frente às situações vivenciadas, é possível reduzir a intensidade de sentimentos desconfortáveis, ou mesmo ter sentimentos diferentes e, por conseguinte, reações comportamentais menos prejudiciais.

O modo de pensar é muito importante em nossas vidas, inclusive no que se refere às expectativas que temos em relação ao futuro. Expectativas realistas e positivas costumam gerar motivação para a ação, o que pode favorecer a concretização dos planejamentos.

Como o problema pode estar sendo mantido?

Quando estamos vivendo uma situação qualquer, podemos ativar pensamentos, reações fisiológicas, comportamentos/atitudes e emoções. Mesmo sem saber ao certo qual será ativado primeiro, quando qualquer um dos quatro aspectos é ativado, os outros três inevitavelmente também serão.

Diante de um ambiente com fatores estressores, algum evento de vida importante, uma perda, uma condição de saúde, um rompimento familiar, a pessoa tende a desenvolver pensamentos de desamparo, desamor ou menos-valia (“nada dá certo na minha vida”, “ninguém gosta mesmo de mim”, “minha vida sempre será de sofrimento”). Isso vai levar a sentimentos de tristeza, desalento, vazio, irritação e culpa. Então, serão esperadas reações fisiológicas disfuncionais, como alterações de sono e apetite, redução de libido, redução da ativação de neurotransmissores (como serotonina e noradrenalina). Como consequência, a pessoa pode tomar decisões inadequadas, como desistir de um projeto, não se cuidar, evitar o contato com as pessoas.

É essencial aprender a lidar com todas essas variáveis. Deve-se estabelecer intervenções nesses aspectos visando a mudança dos fatores mantenedores da Depressão. Então, se a ativação de uma das quatro variáveis inevitavelmente ativa as outras três, a mudança “positiva” de uma delas também afetará “positivamente” aquelas restantes.

Por exemplo: diante de uma nota ruim na faculdade, uma pessoa pode pensar automaticamente que nunca será capaz de terminar seu curso. Daí passa a ficar triste e se lembrar de todas as vezes que vivenciou um fracasso na sua vida. Terá redução do apetite, o sono ficará prejudicado por ficar remoendo tudo o que já aconteceu de errado com ela, e deixará de sair com os amigos. Uma outra alternativa, agora mais saudável, será pensar que todo mundo pode estar num dia ruim e não tirar uma nota boa. Pode analisar que terá outras oportunidades e que, de uma próxima vez, será possível melhorar seu desempenho, até mesmo porque no passado já teve outras notas boas.

Como uma pessoa posso lidar com a Depressão?

A Depressão é um transtorno no qual há uma baixa de energia e disposição que dificulta a realização das tarefas. Envolver-se nas atividades do dia a dia pode parecer “sem graça” ou “sem propósito”.  Entretanto, é justamente a ação que favorece o aumento da motivação para uma ativação adequada da disposição. É comum o paciente com Depressão trazer o discurso de que precisa ter energia para fazer algo, quando é o contrário, é preciso fazer algo para se ter mais energia. É o que chamamos de ativação comportamental, e falamos um pouco mais sobre isso logo abaixo.

Assim, começar com alguns “pequenos passos” é essencial, utilizando-se a energia e os recursos que estiverem à disposição. Caso você esteja com Depressão, pode não estar com muita energia, mas provavelmente pode ter o suficiente para fazer, por exemplo, uma pequena caminhada no quarteirão de casa ou pegar o telefone para falar com um amigo.

Nesse contexto, o indivíduo deve ter cuidado para não se cobrar demais ou criar muitas expectativas. Deve-se criar metas que serão executadas sem maiores dificuldades. No início, possivelmente a pessoa não fará tudo a que se propõe. Deve-se manter o foco nas suas ações, buscando conduzir uma atividade de cada vez. Um ponto importante é, ao realizar uma tarefa, tentar se recompensar por cada realização bem-sucedida.

O indivíduo com Depressão pode ter o processo de recuperação favorecido pelo suporte social, ou resgaste dos vínculos interpessoais. O terapeuta pode incentivar o paciente a construir relacionamentos íntimos e de confiança. A busca por um tratamento farmacológico pode ser necessária em alguns casos. O tratamento conjunto tende a ser uma boa opção para a superação da Depressão.

Com a psicoterapia, é possível desenvolver estratégias para lidar melhor com os problemas associados à Depressão. Estratégias que auxiliem no questionamento das interpretações distorcidas e favoreçam a mudança dos pensamentos disfuncionais para mais adaptativos serão essenciais para melhorar a autoestima, a autoconfiança e aumentar a ativação comportamental.

Além das estratégias citadas, a pessoa com sintomas depressivos pode obter benefícios com a utilização de algumas práticas. Há inúmeros estudos que apontam que meditação, yoga, atividade física regular, prática da religiosidade e espiritualidade podem reduzir sintomas de depressão.

Ativação comportamental: é uma estratégia própria da terapia cognitivo-comportamental, mas que pode ser perfeitamente utilizada na Psicoeducação.

A ativação comportamental busca incentivar a pessoa deprimida a realizar atividades significativas e prazerosas que provavelmente foram abandonadas nesse período, mesmo sem uma motivação inicial. O paciente sempre vai dizer que está sem ânimo e sem energia, mas o foco deve estar na ação como forma de melhorar o humor, ao invés de esperar a vontade surgir. A lógica é “agir para se sentir melhor” – ou seja, o comportamento vai preceder a mudança de humor.

O objetivo da ativação comportamental é romper o ciclo da evitação e aumentar o contato com reforçadores positivos do ambiente. O primeiro passo é identificar as atividades prazerosas que a pessoa deixou de fazer por desânimo ou tristeza (como ir à academia, ver um filme, sair com amigos, visitar familiares) e tentar a retomada isso, mesmo que inicialmente isso lhe pareça sem graça.

Sugestão de leitura: Vencendo a depressão: manual de terapia cognitivo-comportamental para pacientes e terapeutas. Autores: Daniela Tusi Braga, Analise de Souza Vivian e Ives Cavalcante Passos. Editora Artmed, 2019.

* DSM-5-TR Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais – 5ª edição, Texto Revisado. Publicado em 2023, é um manual elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria para auxiliar no diagnóstico dos transtornos mentais.

Referência bibliográfica:

Este texto foi baseado na seguinte referência:

COSTA, R.T. Capítulo 8 – Depressão. In: CARVALHO, M.R.; MALAGRIS, L.E.N.; RANGÉ, B.P. Psicoeducação em Terapia Cognitivo-Comportamental. – Novo Hamburgo: Sinopsys, 2019.

 

Luto não é “Game Over”: O guia para acolher crianças na hora da perda.

Perder alguém que amamos é como se o mundo, de repente, sofresse um “glitch” bizarro. Para os adultos, o chão foge, mas para uma criança a visão é diferente.

* Texto por Pedro Martins, em entrevista à Lesiane Almeida, psicóloga infantil.

Perder alguém que amamos é como se o mundo, de repente, sofresse um “glitch” bizarro. Para os adultos, o chão foge, mas para uma criança a visão é diferente. A ideia é como se as regras do jogo mudassem sem aviso prévio, gerando um impacto emocional intenso e desorganizador.

Mas como falar sobre isso sem transformar a conversa em um bicho de sete cabeças? Vamos conversar sobre como acolher os pequenos nesse momento.

Como lidar com a perda repentina?

Sabe quando o Homem-Aranha perde o Tio Ben ou a Tia May? É um choque que muda tudo. Segundo a Neuropsicóloga Lesiane Almeida, quando uma perda acontece de forma inesperada, como em um acidente, a criança perde o que ela tem de mais precioso, a sensação de que o mundo é um lugar previsível e seguro. “Nesse contexto, ocorre uma ruptura na percepção de segurança e previsibilidade do mundo, o que pode gerar angústia, tristeza profunda e insegurança.”, comenta a profissional.

Diferente de nós, elas não tiveram tempo para se preparar emocionalmente. Isso gera um estado de confusão, medo e até desamparo, porque a rotina de proteção foi quebrada abruptamente.

Fases do luto

Para entender o luto, pense na série WandaVision (2021), da Marvel. A protagonista, Wanda ou Feiticeira Escarlate, passa por todas as fases durante a narrativa do programa: negação (criando uma realidade perfeita para ela), raiva, negociação, depressão e, finalmente, aceitação. No luto infantil, essas fases também aparecem, mas nem sempre em ordem. Estudiosos da área, como a doutora em Psicologia Clínica, Maria Helena Pereira Franco, nos lembra que o luto não é uma linha reta que termina com o “esquecimento”, mas um processo de reconstruir significados. Não se trata de “superar”, mas de aprender a viver com uma nova configuração de vida.

E é importante entender que uma criança não é um “mini-adulto”, sua compreensão sobre o fim da vida muda conforme ela cresce. As menores podem achar que a morte é algo reversível ou temporário. Já crianças maiores começam a entender que a morte é universal e irreversível. Por isso, Lesiane aponta que a comunicação precisa ser ajustada ao nível de desenvolvimento de cada uma. E um ponto fundamental é prestar atenção em como a criança está se comunicando.

Sinais de alerta sobre o comportamento infantil

Assim como nos adultos, a comunicação corporal é fundamental para entender esse momento, mesmo que a criança não fale o que está sentindo verbalmente. “Alterações no sono e apetite, irritabilidade, isolamento, dificuldades escolares, regressões e aumento da dependência são sinais comuns. O brincar também pode revelar o processo de luto, com repetição de temas relacionados à perda.” – aponta Lesiane Almeida.

A Estratégia dos Ibejis

No culto Yorubá, existe uma história muito antiga (um itã) que ilustra bem esse poder do brincar. Dizem que os Ibejis, os Orixás gêmeos divinos, venceram a Iku, a Morte, não com força, mas com música e ritmo. No itã, as divindades crianças eram muito travessas, mas salvaram sua comunidade ao tocarem seus tambores sem parar para distrair a morte que passava pela região. Enquanto um descansava, o outro tocava. A Morte, tentando acompanhar aquela dança infinita, acabou exausta e desistiu, prometendo deixar as crianças em paz.

Essa história nos ensina que a alegria e a ludicidade da criança não são um sinal de que ela “não se importa”, mas sim a forma como ela reafirma a vida e enfrenta o medo. O brincar é o tambor da criança batendo contra o silêncio da perda.

E qual o melhor jeito de dialogar?

A Neuropsicóloga Lesiane Almeida afirma que a verdade é o melhor caminho. O “pensamento mágico” pode fazer a criança achar que é culpada pelo ocorrido “eu briguei com ele e por isso ele se foi”. Frases como “ele foi viajar” ou “virou estrelinha” devem ser evitadas, pois podem causar uma confusão enorme e medo de que outras pessoas que viajam nunca mais voltem. Estabelecer uma linguagem clara, honesta e concreta, validar o que ela sente, como frases como “Tudo bem estar triste, eu também estou com saudade” pode ajudar a criança a entender melhor sobre o momento que está vivendo.

Quando pedir ajuda?

O luto é uma reação esperada, mas se o sofrimento for persistente e impedir a criança de brincar, estudar ou interagir por muito tempo, é hora de procurar ajuda profissional, com locais preparados para auxiliar nesses momentos tão difíceis, como a Clínica Rezende, por exemplo. Sinais como isolamento prolongado, comportamentos auto lesivos ou prejuízo funcional importante são alertas de que a elaboração está difícil demais para enfrentar sem um psicólogo ou neuropsicólogo.

O vínculo que permanece

Lesiane Almeida afirma que “a rede de apoio — família, escola e pessoas próximas — desempenha um papel fundamental nesse processo. Manter uma rotina estruturada contribui para a sensação de segurança. A escola deve estar informada para compreender possíveis mudanças no comportamento e desempenho da criança. O alinhamento entre os adultos envolvidos é essencial para garantir um ambiente acolhedor e consistente.”

No fim, o importante é manter o cuidado e acolher, para que as crianças cresçam com traumas em decorrência. O luto infantil exige paciência e, acima de tudo, presença disponível.

O Peso da Culpa vs. O Prazer de Comer: O que a ciência nos ensina sobre a nossa relação com o prato?

Um estudo clássico realizado pelo psicólogo Paul Rozin, da Universidade da Pensilvânia, revelou uma diferença cultural profunda sobre como enxergamos a comida.

Por Felipe Barreto, nutricionista

Um estudo clássico realizado pelo psicólogo Paul Rozin, da Universidade da Pensilvânia, revelou uma diferença cultural profunda sobre como enxergamos a comida.  Ao apresentarem a imagem de um bolo de chocolate para americanos e franceses, os pesquisadores notaram respostas opostas: enquanto os americanos associaram a imagem imediatamente à “culpa”, os franceses a associaram à “celebração”. Essa descoberta acendeu um alerta sobre como a nossa mentalidade, não apenas o nutriente isolado, impacta diretamente o nosso comportamento alimentar e a nossa saúde global.

Essa dicotomia revela o que chamamos de “estresse nutricional”. Nos Estados Unidos, a comida passou a ser vista como um conjunto de componentes perigosos (gorduras, açúcares, calorias), transformando o ato de comer em um campo de batalha moral.

Paradoxalmente, os franceses, que priorizam o prazer, a qualidade da experiência e as refeições compartilhadas, apresentavam historicamente melhores indicadores de saúde cardiovascular e menores índices de obesidade. O segredo tinha muito mais a ver com uma relação mais leve e equilibrada com o bolo do que com a ausência dele.

No meu trabalho como nutricionista da Clínica Rezende, vejo diariamente como essa

“mentalidade da culpa” sabota o bem-estar dos pacientes. Quando rotulamos um alimento como “proibido” ou “pecado”, geramos uma ansiedade que, ironicamente, nos leva ao descontrole. O comer emocional e os episódios de exagero muitas vezes nascem dessa restrição cognitiva. Se você come um pedaço de bolo sentindo-se culpado, você não saboreia, não percebe a saciedade e acaba buscando mais comida para anestesiar o desconforto emocional daquela experiência.

A minha missão como profissional é justamente resgatar a autonomia e a paz à mesa.

Acredito que a nutrição de verdade acontece quando aliamos a ciência dos alimentos com a consciência do comportamento. Ao praticarmos a atenção plena, aprendemos a distinguir a fome física da fome emocional e, principalmente, a silenciar o julgamento crítico que nos impede de desfrutar de momentos sociais e afetivos. Comer deve ser um ato de autocuidado e nutrição.

Ao mudarmos a forma como olhamos para o “bolo de chocolate”, mudamos também a nosso consumo e a nossa relação com o corpo. Afinal, uma vida saudável não deve ser baseada em restrições rígidas, mas sim aquela onde o prazer e a saúde caminham lado a lado.

Referência Bibliográfica

Rozin, P., Fischler, C., Imada, S., Saris, A., & Wrzesniewski, A. (1999). Attitudes to food and the role of food in life in the U.S.A., Japan, Flemish Belgium and France: A survey. Appetite, 33(2), 163-180. https://doi.org/10.1006/appe.1999.0244