Dor de cabeça: o que seu corpo está tentando dizer (e você precisa ouvir)

Quando as crises começam a se repetir, interferem nos compromissos do dia a dia, afetam o trabalho, os estudos, os momentos de lazer ou até mesmo as relações pessoais, o problema deixa de ser apenas um desconforto passageiro.

* Texto por Pedro Martins, em entrevista à Dra. Mariana Beber Chamon, neurologista.

Dor de cabeça: o que seu corpo está tentando dizer (e você precisa ouvir).

Depois de um dia corrido, uma noite mal dormida ou uma semana mais estressante, é comum sentir um incômodo aparecer, aquela dor de cabeça rotineira, velha companheira, mas que por ser tão frequente, muita gente acaba encarando a dor como algo normal, quase como um efeito colateral inevitável da vida moderna. Mas existe uma diferença importante entre ter dor de cabeça de vez em quando e conviver com ela constantemente.

Quando as crises começam a se repetir, interferem nos compromissos do dia a dia, afetam o trabalho, os estudos, os momentos de lazer ou até mesmo as relações pessoais, o problema deixa de ser apenas um desconforto passageiro. E nesses casos, a dor passa a impactar diretamente a qualidade de vida e merece atenção.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as cefaleias estão entre os distúrbios neurológicos mais comuns do mundo. A organização ainda estima que cerca de 40% da população mundial sofre com esse incômodo que atinge desde crianças até idosos. Ainda assim, muitas pessoas convivem com o problema por anos sem receber um diagnóstico adequado ou um tratamento realmente eficaz. 

Em parte, isso acontece porque a dor de cabeça foi normalizada. Afinal, quem nunca ouviu alguém dizer um “é só uma dorzinha, já vai passar”. Segundo a neurologista Dra. Mariana Chamon, especialista em Distúrbios do Movimento e Neurologia Cognitiva e Comportamental, esse é justamente um dos principais sinais de que algo merece atenção. “Algumas pessoas apresentam dores de cabeça que se tornam tão intensas, ou tão frequentes, que impactam sua rotina. Passam a restringir a realização de algumas tarefas por medo de desencadear crises, atrapalhando suas relações sociais, ocasionando perda de dias de trabalho ou prejudicando sua produtividade”, explica.

Essa percepção faz com que muitas pessoas procurem ajuda apenas quando a situação já está afetando seriamente a rotina. Não é raro que pacientes cheguem ao consultório relatando dores quase diárias, uso frequente de analgésicos e várias tentativas frustradas de tratamento. Com o tempo, algumas até passam a acreditar que terão que aprender a viver assim. E, na verdade, não precisa ser dessa forma.

Mas e a rotina?

A vida que levamos hoje também tem uma participação importante nessa história. O excesso de estímulos, a pressão constante, as notificações que não param de chegar, as noites curtas de sono e a alimentação feita às pressas criam um cenário perfeito para o surgimento ou agravamento das dores de cabeça.

No caso da enxaqueca, um dos tipos de cefaleia, esses fatores costumam funcionar como verdadeiros gatilhos, de acordo com a especialista. Uma sequência de noites mal dormidas, um período mais intenso de estresse ou até mesmo passar muitas horas sem se alimentar podem ser suficientes para desencadear uma crise. Por isso, o tratamento vai muito além dos remédios, é preciso entender a rotina, identificar padrões e fazer alguns ajustes nos hábitos também faz parte do processo.

Mas como saber quando a dor de cabeça merece uma investigação mais cuidadosa?

Dra. Mariana explica que existem alguns sinais que funcionam como alertas, como “dores de cabeça de início recente, ou que se modificaram ao longo do tempo, que são muito frequentes ou muito intensas, com uso constante de analgésicos, o surgimento de uma cefaleia em uma pessoa que já apresenta outros problemas de saúde, em especial as doenças autoimunes. Também devemos ficar de olho em outros sintomas que possam surgir de forma associada, como perda de peso, dormências e vertigem.” 

Isso não significa que toda dor de cabeça seja sinal de algo grave, o que esses sinais indicam é que vale a pena investigar para entender exatamente o que está acontecendo.

“Ai, tô com uma enxaqueca danada”

Entre os diversos tipos de cefaleia, a enxaqueca continua sendo uma das principais responsáveis pela busca por atendimento médico. Além da dor, que pode ser bastante incapacitante, ela pode vir acompanhada de outros sintomas que tornam as crises ainda mais difíceis de enfrentar, por exemplo, sensibilidade à luz, aos sons, náuseas e dificuldade para manter as atividades normais são algumas das queixas mais frequentes.

Muitas pessoas também carregam uma preocupação silenciosa durante as crises, a dúvida sobre a possibilidade de a dor estar relacionada a algo mais sério. É justamente por isso que o diagnóstico correto faz tanta diferença.

Ao contrário do que muita gente imagina, a investigação da dor de cabeça nem sempre começa com exames, grande parte das informações necessárias surge durante a conversa com o neurologista. “A diferenciação dos tipos de dor de cabeça é feita durante a avaliação por um médico neurologista, a partir de dados históricos do paciente, como as características da dor, exame neurológico, e em alguns casos, são necessários exames complementares.” – segundo Dra Mariana Chamon. 

Entender como a dor começou, qual é sua frequência, onde ela aparece, quanto tempo dura e quais sintomas a acompanham ajuda a construir o diagnóstico de forma bastante precisa. E a boa notícia é que hoje existem diferentes formas de tratamento e controle para as cefaleias.

Os exames complementares podem ser necessários em algumas situações específicas, principalmente quando existem sinais de alerta ou quando o médico precisa descartar outras causas para o sintoma, mas, na maioria das vezes, o histórico do paciente continua sendo uma das ferramentas mais importantes para identificar o tipo de cefaleia e definir o melhor tratamento.

Vale a pena viver com dor só pra fugir do médico?

No fim das contas, viver com dor de cabeça frequente não deve ser encarado como algo normal. Eu mesmo, redator deste texto, morro de medo de médicos e sempre fujo quando posso, mas entendo que não é algo correto para mim e para os meus. Se a dor está mudando sua rotina, limitando seus planos ou fazendo parte dos seus dias com mais frequência do que deveria, procurar ajuda especializada pode ser o primeiro passo para recuperar qualidade de vida. 

E nada de automedicação! Pode ser tentador buscar alívio imediato, mas tomar analgésicos por conta própria pode agravar o quadro e dificultar o diagnóstico real. Priorize sua saúde e busque sempre a orientação de um profissional! 

Sentir dor de cabeça de vez em quando pode acontecer, já aprender a conviver com ela como se fosse parte da sua identidade é uma história que não precisa continuar sendo escrita.

Crianças desatentas e com dificuldade na escola? Entenda o impacto silencioso das telas na aprendizagem

Nem sempre se trata de um transtorno, muitas vezes, as dificuldades estão relacionadas ao contexto ambiental, à rotina da criança e a fatores pedagógicos.

* Por Dilaine Lopes, psicopedagoga clínica e institucional

Crianças desatentas e com dificuldade na escola? Entenda o impacto silencioso das telas na aprendizagem

Nem sempre se trata de um transtorno, muitas vezes, as dificuldades estão relacionadas ao contexto ambiental, à rotina da criança e a fatores pedagógicos.

No contexto da clínica psicopedagógica, têm sido cada vez mais frequentes as queixas relacionadas à desatenção, dispersão e dificuldade na retenção de conteúdos escolares. Tais manifestações, frequentemente, suscitam a hipótese de transtornos do neurodesenvolvimento. No entanto, uma análise criteriosa evidencia que, em muitos casos, essas dificuldades podem estar relacionadas a fatores do contexto ambiental e à organização da rotina da criança.

A avaliação psicopedagógica, nesse cenário, assume um papel fundamental, pois não se restringe à identificação de possíveis indicativos clínicos, mas busca compreender o modo singular de aprender do sujeito, considerando a integração entre aspectos cognitivos, emocionais e contextuais. Conforme destaca Nádia Bossa, trata-se de um processo investigativo amplo, voltado à identificação de potencialidades e dificuldades, com vistas à construção de intervenções mais assertivas.

A partir dessa perspectiva, apresenta-se uma situação vivenciada em consultório, na qual a criança (aprendente) foi encaminhada com queixa principal de dificuldade de concentração, dispersão frequente e baixa retenção de informações. Observou-se, ainda, comprometimento na atenção sustentada, associado a desinteresse pelas atividades escolares e desmotivação para frequentar a escola. Segundo relato materno, a criança demonstrava preferência significativa por permanecer em casa utilizando o celular, em detrimento das demandas acadêmicas e da vivência escolar.

Durante o processo avaliativo, foram observadas dificuldades no desempenho de funções executivas, especialmente na memória de trabalho e no controle inibitório. Tais manifestações evidenciaram-se por meio de agitação motora, dificuldade em manter-se em uma mesma atividade por períodos mais prolongados, elevada suscetibilidade a estímulos distratores e limitação na retenção de informações recém-apresentadas, evidenciada pela dificuldade em manter conteúdos logo após a explicação da professora.

No levantamento de dados realizado por meio da anamnese, identificou-se um padrão de uso intenso de dispositivos eletrônicos, especialmente no período noturno, com exposição prolongada a conteúdos digitais de alta estimulação e rápida alternância. Tal padrão mostrou-se associado à desorganização da rotina de sono, resultando em cansaço, sonolência diurna e redução do engajamento nas atividades escolares. Considerando a análise do contexto e o respaldo da literatura, esse fator foi compreendido como uma variável relevante na dinâmica das dificuldades apresentadas.

A literatura científica tem apontado que a exposição excessiva a estímulos digitais, especialmente quando associada à ausência de mediação adequada e à desorganização da rotina, pode estar relacionada a dificuldades no desenvolvimento e no desempenho das funções executivas, conjunto de habilidades cognitivas responsáveis pelo controle da atenção, autorregulação e organização do comportamento. De acordo com Adele Diamond, funções como memória de trabalho, controle inibitório e atenção são essenciais para o desempenho acadêmico. De modo complementar, Russell A. Barkley destaca que dificuldades nessas funções podem impactar a capacidade de manter o foco, seguir instruções e organizar ações no contexto escolar.

Além disso, o uso de telas, especialmente no período noturno, pode comprometer a qualidade do sono, aspecto fundamental para os processos de consolidação da memória e da aprendizagem, conforme apontam diretrizes de organismos internacionais de saúde, como a Organização Mundial da Saúde, bem como recomendações de entidades pediátricas, como a American Academy of Pediatrics

Diante desse contexto, foi iniciado o acompanhamento psicopedagógico, envolvendo a reorganização da rotina da criança, orientação familiar quanto ao estabelecimento de limites no uso de dispositivos eletrônicos e intervenções específicas voltadas ao fortalecimento das funções executivas, especialmente atenção sustentada, memória de trabalho e controle inibitório. Ressalta-se a importância de uma atuação interdisciplinar, quando necessária, considerando a complexidade dos fatores envolvidos no processo de aprendizagem.

Destaca-se que as observações apresentadas referem-se ao contexto da avaliação psicopedagógica, não configurando, isoladamente, definição diagnóstica, mas contribuindo para a compreensão funcional das dificuldades no processo de aprendizagem.

Esse caso reforça a importância de um olhar técnico, sensível e ampliado sobre as dificuldades escolares. Nem sempre estamos diante de um transtorno; muitas vezes, aspectos do cotidiano, especialmente relacionados ao contexto ambiental, à rotina e ao uso excessivo de telas, exercem impacto significativo no desenvolvimento cognitivo e emocional da criança.

Minha atuação clínica fundamenta-se em uma avaliação psicopedagógica criteriosa, detalhada e embasada em referenciais teóricos consolidados, incluindo a utilização de protocolos desenvolvidos por Nádia Bossa, uma das principais referências da psicopedagogia no Brasil. Isso possibilita a compreensão aprofundada do perfil de aprendizagem e a construção de intervenções individualizadas e eficazes.

Se você tem observado em seu filho dificuldades de atenção, esquecimento frequente, desmotivação escolar ou resistência em frequentar a escola, é fundamental investigar de forma adequada. A avaliação psicopedagógica pode ser um importante passo para compreender essas dificuldades e direcionar intervenções assertivas e responsáveis.

Agende uma avaliação e compreenda, de forma técnica e cuidadosa, como apoiar o desenvolvimento da aprendizagem.

Referências


BARKLEY, Russell A. Executive functions: what they are, how they work, and why they evolved. New York: Guilford Press, 2012.

BOSSA, Nádia A. A psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.

DIAMOND, Adele. Executive functions. Annual Review of Psychology, Palo Alto, v. 64, p. 135–168, 2013.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. Geneva: WHO, 2019.

AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Media and young minds. Pediatrics, Elk Grove Village, v. 138, n. 5, e20162591, 2016.

Depressão

A DEPRESSÃO é um transtorno complexo, uma síndrome composta por diversos sintomas, que causa grande sofrimento e prejuízo na vida do indivíduo e das pessoas com as quais ele convive.

* Por Alexandre de Rezende, Psiquiatra.

DEPRESSÃO

Primeiramente, é importante destacar que há uma grande diferença entre tristeza e depressão. A tristeza é uma emoção normal e fisiológica, e principalmente passageira, esperada diante de um evento adverso da nossa vida, surge como consequência a uma perda, uma decepção ou desapontamento, uma lembrança de algo ruim que aconteceu ou mesmo um pensamento não adequado que ativamos de forma automática. Ela tem por objetivo sinalizar a necessidade de recebermos algum tipo de apoio e ajuda, e apontar o quanto aquela situação é desconfortável para nós.

Por outro lado, a DEPRESSÃO é um transtorno complexo, uma síndrome composta por diversos sintomas, que causa grande sofrimento e prejuízo na vida do indivíduo e das pessoas com as quais ele convive. Ou seja, trata-se de uma condição grave que envolve fatores genéticos, psicológicos e ambientais em sua origem.

A Depressão é uma condição psiquiátrica muito frequente. Estima-se que, no Brasil, em torno de 18,4% das pessoas vão ter Depressão ao longo da vida, com idade média de início em torno de 24 anos.

Características do DSM-5*

O Transtorno Depressivo Maior se caracteriza pela presença de alguns sintomas por um período de pelo menos 2 semanas e representam uma mudança em relação ao funcionamento anterior. Os dois sintomas mais importantes são:

  1. Humor deprimido (sentir-se triste, vazio, sem esperança); OU
  2. Perda de interesse ou prazer. 

Além desses, outros sintomas incluem alterações do peso ou apetite, alterações do sono, agitação ou lentidão psicomotora, fadiga, sentimentos de inutilidade ou culpa, diminuição da capacidade para pensar ou se concentrar, pensamentos de morte e ideação suicida.

É importante destacar que esses sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

Ainda há muito estigma sobre um quadro de Depressão, mas esse problema não deve ser entendido como um sinal de fraqueza ou fragilidade na forma de lidar com os problemas da vida, nem mesmo uma condição que se possa facilmente reverter tão somente pela própria força de vontade. A pessoa com Depressão, na maior parte das vezes, precisa de ajuda para conseguir reagir, enfrentar esse transtorno e ter uma melhora significativa.

A importância dos pensamentos numa Depressão

Quando uma pessoa vivencia um quadro depressivo, tem uma maior tendência de avaliar as situações de forma negativista e pessimista, em geral irrealista. Nesse caso, vivencia-se emoções desconfortáveis de modo desnecessário e tende a expressar comportamentos desadaptativos que podem trazer prejuízos.

Os modos distorcidos de pensar costumam envolver um ou mais dos seguintes temas:

  • Interpretações sobre acontecimentos

Quando algo de ruim acontece em um determinado contexto, o indivíduo com Depressão tende a pensar que em situações semelhantes, o desfecho sempre será igualmente ruim. A mesma lógica não se observa diante de um cenário onde algo bom acontece, pelo contrário o indivíduo que sofre de depressão pode ignorar ou minimizar acontecimentos bons.

  • Autoavaliação excessivamente ruim

As pessoas com Depressão costumam atribuir a si mesmas, de forma não adequada, a maior parte da responsabilidade (culpa) pelas coisas ruins que acontecem consigo ou, até mesmo, com as pessoas ao seu redor. Além disso, tendem a repetir internamente para si mesmas seus fracassos, passam a lembrar em exagero seus erros do passado.

Veja a seguir alguns exemplos de distorções de pensamento comumente presentes em pessoas com Depressão (Beck, 1997):

  • Conclusão precipitada

Após uma tentativa frustrada de conquistar uma pessoa: “Não faço sucesso com mulheres, nunca vou conseguir ficar com ninguém”.

  • Menosprezar o positivo

Após ter se dedicado aos estudos e ter conseguido uma excelente nota: “Só tirei essa nota porque a prova estava fácil, o professor facilitou, qualquer pessoa tiraria uma nota boa”.

  • Exagero

Ao enfrentar um desconforto em função de uma adversidade momentânea: “Minha vida é assim, isso vai durar para sempre”.

  • Visão em foco

Após ouvir a cobrança do seu chefe, ignorando as várias vezes em que ele ficou quieto ou mesmo elogiou ao ver algo bom acontecendo: “Meu chefe sempre reclama de tudo”.

  • Aprisionar-se no passado

Ficar repetindo internamente de forma exagerada e inútil pensamentos sobre o passado e deixando de focar em ações práticas que podem favorecer a resolução dos problemas atuais: “Sou todo errado mesmo, deveria ter aproveitado a oportunidade, deveria ter me dedicado mais”.

  • Trazendo para si toda a responsabilidade

Após uma interação social que não aconteceu da forma desejada: “Ela não falou comigo porque não tenho carisma, não tenho atrativos”.

É possível questionar esses pensamentos disfuncionais com o intuito de modificá-los, principalmente quando eles não se sustentam por argumentos lógicos e fatos observáveis. A psicoterapia pode ajudar na identificação dos erros de pensamentos que geram sentimentos desconfortáveis. Desse modo, o resultado poderá ser emoções e comportamentos menos prejudiciais.

Ao conseguir desenvolver pensamentos mais realistas frente às situações vivenciadas, é possível reduzir a intensidade de sentimentos desconfortáveis, ou mesmo ter sentimentos diferentes e, por conseguinte, reações comportamentais menos prejudiciais.

O modo de pensar é muito importante em nossas vidas, inclusive no que se refere às expectativas que temos em relação ao futuro. Expectativas realistas e positivas costumam gerar motivação para a ação, o que pode favorecer a concretização dos planejamentos.

Como o problema pode estar sendo mantido?

Quando estamos vivendo uma situação qualquer, podemos ativar pensamentos, reações fisiológicas, comportamentos/atitudes e emoções. Mesmo sem saber ao certo qual será ativado primeiro, quando qualquer um dos quatro aspectos é ativado, os outros três inevitavelmente também serão.

Diante de um ambiente com fatores estressores, algum evento de vida importante, uma perda, uma condição de saúde, um rompimento familiar, a pessoa tende a desenvolver pensamentos de desamparo, desamor ou menos-valia (“nada dá certo na minha vida”, “ninguém gosta mesmo de mim”, “minha vida sempre será de sofrimento”). Isso vai levar a sentimentos de tristeza, desalento, vazio, irritação e culpa. Então, serão esperadas reações fisiológicas disfuncionais, como alterações de sono e apetite, redução de libido, redução da ativação de neurotransmissores (como serotonina e noradrenalina). Como consequência, a pessoa pode tomar decisões inadequadas, como desistir de um projeto, não se cuidar, evitar o contato com as pessoas.

É essencial aprender a lidar com todas essas variáveis. Deve-se estabelecer intervenções nesses aspectos visando a mudança dos fatores mantenedores da Depressão. Então, se a ativação de uma das quatro variáveis inevitavelmente ativa as outras três, a mudança “positiva” de uma delas também afetará “positivamente” aquelas restantes.

Por exemplo: diante de uma nota ruim na faculdade, uma pessoa pode pensar automaticamente que nunca será capaz de terminar seu curso. Daí passa a ficar triste e se lembrar de todas as vezes que vivenciou um fracasso na sua vida. Terá redução do apetite, o sono ficará prejudicado por ficar remoendo tudo o que já aconteceu de errado com ela, e deixará de sair com os amigos. Uma outra alternativa, agora mais saudável, será pensar que todo mundo pode estar num dia ruim e não tirar uma nota boa. Pode analisar que terá outras oportunidades e que, de uma próxima vez, será possível melhorar seu desempenho, até mesmo porque no passado já teve outras notas boas.

Como uma pessoa posso lidar com a Depressão?

A Depressão é um transtorno no qual há uma baixa de energia e disposição que dificulta a realização das tarefas. Envolver-se nas atividades do dia a dia pode parecer “sem graça” ou “sem propósito”.  Entretanto, é justamente a ação que favorece o aumento da motivação para uma ativação adequada da disposição. É comum o paciente com Depressão trazer o discurso de que precisa ter energia para fazer algo, quando é o contrário, é preciso fazer algo para se ter mais energia. É o que chamamos de ativação comportamental, e falamos um pouco mais sobre isso logo abaixo.

Assim, começar com alguns “pequenos passos” é essencial, utilizando-se a energia e os recursos que estiverem à disposição. Caso você esteja com Depressão, pode não estar com muita energia, mas provavelmente pode ter o suficiente para fazer, por exemplo, uma pequena caminhada no quarteirão de casa ou pegar o telefone para falar com um amigo.

Nesse contexto, o indivíduo deve ter cuidado para não se cobrar demais ou criar muitas expectativas. Deve-se criar metas que serão executadas sem maiores dificuldades. No início, possivelmente a pessoa não fará tudo a que se propõe. Deve-se manter o foco nas suas ações, buscando conduzir uma atividade de cada vez. Um ponto importante é, ao realizar uma tarefa, tentar se recompensar por cada realização bem-sucedida.

O indivíduo com Depressão pode ter o processo de recuperação favorecido pelo suporte social, ou resgaste dos vínculos interpessoais. O terapeuta pode incentivar o paciente a construir relacionamentos íntimos e de confiança. A busca por um tratamento farmacológico pode ser necessária em alguns casos. O tratamento conjunto tende a ser uma boa opção para a superação da Depressão.

Com a psicoterapia, é possível desenvolver estratégias para lidar melhor com os problemas associados à Depressão. Estratégias que auxiliem no questionamento das interpretações distorcidas e favoreçam a mudança dos pensamentos disfuncionais para mais adaptativos serão essenciais para melhorar a autoestima, a autoconfiança e aumentar a ativação comportamental.

Além das estratégias citadas, a pessoa com sintomas depressivos pode obter benefícios com a utilização de algumas práticas. Há inúmeros estudos que apontam que meditação, yoga, atividade física regular, prática da religiosidade e espiritualidade podem reduzir sintomas de depressão.

Ativação comportamental: é uma estratégia própria da terapia cognitivo-comportamental, mas que pode ser perfeitamente utilizada na Psicoeducação.

A ativação comportamental busca incentivar a pessoa deprimida a realizar atividades significativas e prazerosas que provavelmente foram abandonadas nesse período, mesmo sem uma motivação inicial. O paciente sempre vai dizer que está sem ânimo e sem energia, mas o foco deve estar na ação como forma de melhorar o humor, ao invés de esperar a vontade surgir. A lógica é “agir para se sentir melhor” – ou seja, o comportamento vai preceder a mudança de humor.

O objetivo da ativação comportamental é romper o ciclo da evitação e aumentar o contato com reforçadores positivos do ambiente. O primeiro passo é identificar as atividades prazerosas que a pessoa deixou de fazer por desânimo ou tristeza (como ir à academia, ver um filme, sair com amigos, visitar familiares) e tentar a retomada isso, mesmo que inicialmente isso lhe pareça sem graça.

Sugestão de leitura: Vencendo a depressão: manual de terapia cognitivo-comportamental para pacientes e terapeutas. Autores: Daniela Tusi Braga, Analise de Souza Vivian e Ives Cavalcante Passos. Editora Artmed, 2019.

* DSM-5-TR Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais – 5ª edição, Texto Revisado. Publicado em 2023, é um manual elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria para auxiliar no diagnóstico dos transtornos mentais.

Referência bibliográfica:

Este texto foi baseado na seguinte referência:

COSTA, R.T. Capítulo 8 – Depressão. In: CARVALHO, M.R.; MALAGRIS, L.E.N.; RANGÉ, B.P. Psicoeducação em Terapia Cognitivo-Comportamental. – Novo Hamburgo: Sinopsys, 2019.

 

Luto não é “Game Over”: O guia para acolher crianças na hora da perda.

Perder alguém que amamos é como se o mundo, de repente, sofresse um “glitch” bizarro. Para os adultos, o chão foge, mas para uma criança a visão é diferente.

* Texto por Pedro Martins, em entrevista à Lesiane Almeida, psicóloga infantil.

Perder alguém que amamos é como se o mundo, de repente, sofresse um “glitch” bizarro. Para os adultos, o chão foge, mas para uma criança a visão é diferente. A ideia é como se as regras do jogo mudassem sem aviso prévio, gerando um impacto emocional intenso e desorganizador.

Mas como falar sobre isso sem transformar a conversa em um bicho de sete cabeças? Vamos conversar sobre como acolher os pequenos nesse momento.

Como lidar com a perda repentina?

Sabe quando o Homem-Aranha perde o Tio Ben ou a Tia May? É um choque que muda tudo. Segundo a Neuropsicóloga Lesiane Almeida, quando uma perda acontece de forma inesperada, como em um acidente, a criança perde o que ela tem de mais precioso, a sensação de que o mundo é um lugar previsível e seguro. “Nesse contexto, ocorre uma ruptura na percepção de segurança e previsibilidade do mundo, o que pode gerar angústia, tristeza profunda e insegurança.”, comenta a profissional.

Diferente de nós, elas não tiveram tempo para se preparar emocionalmente. Isso gera um estado de confusão, medo e até desamparo, porque a rotina de proteção foi quebrada abruptamente.

Fases do luto

Para entender o luto, pense na série WandaVision (2021), da Marvel. A protagonista, Wanda ou Feiticeira Escarlate, passa por todas as fases durante a narrativa do programa: negação (criando uma realidade perfeita para ela), raiva, negociação, depressão e, finalmente, aceitação. No luto infantil, essas fases também aparecem, mas nem sempre em ordem. Estudiosos da área, como a doutora em Psicologia Clínica, Maria Helena Pereira Franco, nos lembra que o luto não é uma linha reta que termina com o “esquecimento”, mas um processo de reconstruir significados. Não se trata de “superar”, mas de aprender a viver com uma nova configuração de vida.

E é importante entender que uma criança não é um “mini-adulto”, sua compreensão sobre o fim da vida muda conforme ela cresce. As menores podem achar que a morte é algo reversível ou temporário. Já crianças maiores começam a entender que a morte é universal e irreversível. Por isso, Lesiane aponta que a comunicação precisa ser ajustada ao nível de desenvolvimento de cada uma. E um ponto fundamental é prestar atenção em como a criança está se comunicando.

Sinais de alerta sobre o comportamento infantil

Assim como nos adultos, a comunicação corporal é fundamental para entender esse momento, mesmo que a criança não fale o que está sentindo verbalmente. “Alterações no sono e apetite, irritabilidade, isolamento, dificuldades escolares, regressões e aumento da dependência são sinais comuns. O brincar também pode revelar o processo de luto, com repetição de temas relacionados à perda.” – aponta Lesiane Almeida.

A Estratégia dos Ibejis

No culto Yorubá, existe uma história muito antiga (um itã) que ilustra bem esse poder do brincar. Dizem que os Ibejis, os Orixás gêmeos divinos, venceram a Iku, a Morte, não com força, mas com música e ritmo. No itã, as divindades crianças eram muito travessas, mas salvaram sua comunidade ao tocarem seus tambores sem parar para distrair a morte que passava pela região. Enquanto um descansava, o outro tocava. A Morte, tentando acompanhar aquela dança infinita, acabou exausta e desistiu, prometendo deixar as crianças em paz.

Essa história nos ensina que a alegria e a ludicidade da criança não são um sinal de que ela “não se importa”, mas sim a forma como ela reafirma a vida e enfrenta o medo. O brincar é o tambor da criança batendo contra o silêncio da perda.

E qual o melhor jeito de dialogar?

A Neuropsicóloga Lesiane Almeida afirma que a verdade é o melhor caminho. O “pensamento mágico” pode fazer a criança achar que é culpada pelo ocorrido “eu briguei com ele e por isso ele se foi”. Frases como “ele foi viajar” ou “virou estrelinha” devem ser evitadas, pois podem causar uma confusão enorme e medo de que outras pessoas que viajam nunca mais voltem. Estabelecer uma linguagem clara, honesta e concreta, validar o que ela sente, como frases como “Tudo bem estar triste, eu também estou com saudade” pode ajudar a criança a entender melhor sobre o momento que está vivendo.

Quando pedir ajuda?

O luto é uma reação esperada, mas se o sofrimento for persistente e impedir a criança de brincar, estudar ou interagir por muito tempo, é hora de procurar ajuda profissional, com locais preparados para auxiliar nesses momentos tão difíceis, como a Clínica Rezende, por exemplo. Sinais como isolamento prolongado, comportamentos auto lesivos ou prejuízo funcional importante são alertas de que a elaboração está difícil demais para enfrentar sem um psicólogo ou neuropsicólogo.

O vínculo que permanece

Lesiane Almeida afirma que “a rede de apoio — família, escola e pessoas próximas — desempenha um papel fundamental nesse processo. Manter uma rotina estruturada contribui para a sensação de segurança. A escola deve estar informada para compreender possíveis mudanças no comportamento e desempenho da criança. O alinhamento entre os adultos envolvidos é essencial para garantir um ambiente acolhedor e consistente.”

No fim, o importante é manter o cuidado e acolher, para que as crianças cresçam com traumas em decorrência. O luto infantil exige paciência e, acima de tudo, presença disponível.

O Peso da Culpa vs. O Prazer de Comer: O que a ciência nos ensina sobre a nossa relação com o prato?

Um estudo clássico realizado pelo psicólogo Paul Rozin, da Universidade da Pensilvânia, revelou uma diferença cultural profunda sobre como enxergamos a comida.

Por Felipe Barreto, nutricionista

Um estudo clássico realizado pelo psicólogo Paul Rozin, da Universidade da Pensilvânia, revelou uma diferença cultural profunda sobre como enxergamos a comida.  Ao apresentarem a imagem de um bolo de chocolate para americanos e franceses, os pesquisadores notaram respostas opostas: enquanto os americanos associaram a imagem imediatamente à “culpa”, os franceses a associaram à “celebração”. Essa descoberta acendeu um alerta sobre como a nossa mentalidade, não apenas o nutriente isolado, impacta diretamente o nosso comportamento alimentar e a nossa saúde global.

Essa dicotomia revela o que chamamos de “estresse nutricional”. Nos Estados Unidos, a comida passou a ser vista como um conjunto de componentes perigosos (gorduras, açúcares, calorias), transformando o ato de comer em um campo de batalha moral.

Paradoxalmente, os franceses, que priorizam o prazer, a qualidade da experiência e as refeições compartilhadas, apresentavam historicamente melhores indicadores de saúde cardiovascular e menores índices de obesidade. O segredo tinha muito mais a ver com uma relação mais leve e equilibrada com o bolo do que com a ausência dele.

No meu trabalho como nutricionista da Clínica Rezende, vejo diariamente como essa

“mentalidade da culpa” sabota o bem-estar dos pacientes. Quando rotulamos um alimento como “proibido” ou “pecado”, geramos uma ansiedade que, ironicamente, nos leva ao descontrole. O comer emocional e os episódios de exagero muitas vezes nascem dessa restrição cognitiva. Se você come um pedaço de bolo sentindo-se culpado, você não saboreia, não percebe a saciedade e acaba buscando mais comida para anestesiar o desconforto emocional daquela experiência.

A minha missão como profissional é justamente resgatar a autonomia e a paz à mesa.

Acredito que a nutrição de verdade acontece quando aliamos a ciência dos alimentos com a consciência do comportamento. Ao praticarmos a atenção plena, aprendemos a distinguir a fome física da fome emocional e, principalmente, a silenciar o julgamento crítico que nos impede de desfrutar de momentos sociais e afetivos. Comer deve ser um ato de autocuidado e nutrição.

Ao mudarmos a forma como olhamos para o “bolo de chocolate”, mudamos também a nosso consumo e a nossa relação com o corpo. Afinal, uma vida saudável não deve ser baseada em restrições rígidas, mas sim aquela onde o prazer e a saúde caminham lado a lado.

Referência Bibliográfica

Rozin, P., Fischler, C., Imada, S., Saris, A., & Wrzesniewski, A. (1999). Attitudes to food and the role of food in life in the U.S.A., Japan, Flemish Belgium and France: A survey. Appetite, 33(2), 163-180. https://doi.org/10.1006/appe.1999.0244

Entre trends e transtornos: quando o feed começa a dar diagnósticos.

Você já assistiu a um vídeo no TikTok que começava assim: “Se você faz isso, você tem TDAH”. Ou aquele carrossel no Instagram: “5 sinais de que você pode ser autista e não sabe”. Se em algum momento você pensou “Nossa… sou eu”, saiba que você não está sozinho.

* * Texto por Pedro Martins, em entrevista à Dra. Shirlene Vianna Moreira, neuropsicóloga.

Entre trends e transtornos: quando o feed começa a dar diagnósticos

Você já assistiu a um vídeo no TikTok que começava assim: “Se você faz isso, você tem TDAH”. Ou aquele carrossel no Instagram: “5 sinais de que você pode ser autista e não sabe”. Se em algum momento você pensou “Nossa… sou eu”, saiba que você não está sozinho.

Nos últimos anos, conteúdos sobre saúde mental e neurodivergência se multiplicaram nas redes sociais. E isso tem um lado muito positivo. Falar sobre ansiedade, TDAH, autismo, depressão e altas habilidades deixou de ser tabu e passou a naturalizar pessoas que vivem dentro desses espectros. A informação ficou mais acessível e as pessoas encontraram identificação, acolhimento e comunidade. 

Só no Brasil, por exemplo, existem 2,4 milhões de pessoas convivendo com transtorno do espectro autista (TEA) segundo o Censo de 2022 do IBGE. Mas, no meio de tanta informação, surgiu também um fenômeno delicado: a banalização dos autodiagnósticos.

Quando o algoritmo vira “consultório”

Segundo a neuropsicóloga, Dra. Shirlene Vianna, é cada vez mais comum que pacientes procurem avaliação já afirmando “Eu tenho TDAH”,  “Sou autista”, “Acho que tenho borderline”. Muitas vezes, essa percepção nasce do consumo de conteúdos curtos e simplificados nas redes. O problema é que vídeos curtos precisam caber no ritmo acelerado do feed. E, para isso, podem causar falhas de comunicação e induzir ao autodiagnóstico.

Assim, aspectos da própria personalidade podem ser confundidos. Por exemplo, uma pessoa muito distraída pode achar que tem TDAH, ou uma pessoa com uma carga muito elevada de trabalho confundir cansaço com burnout. 

A Dra. Shirlene explica que “transtornos neurodivergentes são transtornos advindos do neurodesenvolvimento. A pessoa não fica neurodivergente, mas ela sempre foi. É uma situação que causa grande sofrimento[…]”.

Neurodivergência não é tendência

Quando um diagnóstico é tratado como rótulo de identificação estética ou traço de personalidade “cool”, corre-se o risco de minimizar a experiência de quem convive com desafios significativos no dia a dia.

É diferente dizer “eu me distraio às vezes” e dizer “tenho um transtorno que impacta minha vida acadêmica, profissional, social e emocional de forma persistente.”. Parece sutil, mas é uma diferença profunda.

Mas então… sentir não é válido?

Sentir é sempre válido. Se você se identifica com um conteúdo, isso pode ser um ponto de partida para reflexão e um convite para olhar para si com mais cuidado, como um sinal de que algo merece atenção. O que não é saudável é transformar identificação em diagnóstico automático.

Principalmente quando falamos de públicos jovens. A adolescência e o início da vida adulta são fases intensas de construção de identidade. É natural experimentar, testar, oscilar, se questionar. Nem todo comportamento diferente é um transtorno e nem toda dificuldade é um diagnóstico, explica a neuropsicóloga.

O mais importante é, se tiver dúvidas procure um profissional especializado, como a Clínica Rezende, por exemplo, e faça uma avaliação neuropsicológica. 

Como funciona uma avaliação neuropsicológica?

Ao contrário do que muitos imaginam, uma avaliação neuropsicológica não é uma conversa rápida com um veredito no final. Ela é um processo estruturado que pode incluir:

  • Entrevista clínica;
  • Aplicação de testes neuropsicológicos;
  • Investigação de hipóteses diagnósticas;
  • Sessão de devolutiva;
  • Elaboração de relatório.

A avaliação analisa a pessoa de forma global, suas funções cognitivas, inteligência, personalidade, humor, histórico de vida e contexto familiar. Os testes utilizam parâmetros específicos de acordo com idade e escolaridade.

Além disso, existe uma diferença importante entre comportamento situacional, que oscila conforme contexto, e o sinal clínico persistente e presente em múltiplos ambientes ao longo da história do indivíduo.

Todos esses aspectos precisam ser avaliados através das entrevistas com o paciente e seus familiares, reflete Shirlene. 

Conscientização ou desinformação?

A internet democratizou o acesso à informação sobre saúde mental e isso é valioso. Mas também abriu espaço para conteúdos produzidos por pessoas sem formação clínica ou experiência profissional.

Quando falamos de transtornos, estamos lidando com conceitos técnicos que têm implicações clínicas, sociais e identitárias. Não são apenas “características de personalidade”.

Criadores de conteúdo têm uma responsabilidade ética importante. Conscientizar é informar com cuidado, contextualizar e incentivar a busca por avaliação profissional quando necessário. Quando conceitos são usados de forma imprecisa, o sofrimento real pode ser minimizado. Por isso, vale sempre perguntar: “Quem está falando?” / “Qual é a formação dessa pessoa?” / “Existe base científica?”

Informação não substitui avaliação

Consumir conteúdo pode ampliar repertório e ser um canal para a busca de uma ajuda, mas não substitui avaliação profissional.

Dra. Shirlene aconselha para que, caso tenha dúvida, sofrimento persistente ou impacto significativo na vida, o caminho mais seguro é buscar orientação com psicólogo credenciado pelo Conselho Regional de Psicologia ou encaminhamento médico adequado.

Saúde mental não é trend e diagnóstico não é identidade estética. Cuidar de si exige mais profundidade do que um vídeo curto de 45 segundos.

E talvez o passo mais maduro não seja dizer “eu tenho isso”, mas sim questionar:
“Eu preciso de ajuda para entender melhor o que estou vivendo?” Essa pergunta, sim, pode mudar tudo.

 

“Rico gosta de gente magra” – O corpo e o poder.

Você já ouviu essa frase ou já parou para refletir sobre o assunto? De que o padrão de beleza carrega significados que vão muito além da estética?

* Por Laís Helena, Psicóloga.

Você já ouviu essa frase ou já parou para refletir sobre o assunto? De que o padrão de beleza carrega significados que vão muito além da estética?

Ao longo da história, o que consideramos “belo” nunca foi apenas uma questão de gosto ou estética. O padrão de beleza sempre refletiu os valores sociais, morais e econômicos de cada época. O corpo, especialmente o feminino, tem sido usado como símbolo de poder, status e pertencimento, revelando muito mais sobre a sociedade do que apenas beleza.

Nas civilizações antigas e medievais a comida era escassa, e poder se alimentar bem era um privilégio de poucos. Assim, os nobres, em sua maioria, tinham corpos grandes e fartos, indicando que podiam comer bem e viver sem o desgaste do trabalho físico.
Por outro lado, os corpos magros representavam outra realidade, a da escassez, da privação e do trabalho. 

Com o passar dos séculos, especialmente depois da Revolução Industrial, quando o novo modelo econômico passou a valorizar produtividade, racionalidade e disciplina, o ideal de corpo também mudou. O tamanho do corpo passou a demonstrar virtude, inteligência, eficiência ou a falta delas. Nesse momento, o que antes representava fartura passou a simbolizar excesso e falta de controle. A magreza deixou de ser um sinal de escassez e passou a indicar autodomínio, como se o controle sobre o corpo fosse prova de mérito e força de vontade. Ou seja, o corpo tornou-se, então, um reflexo da ética do trabalho capitalista.

No século XX, com o crescimento da mídia e da cultura de massa, o corpo ganhou um novo papel: o de mercadoria. As imagens nas revistas, na TV e, mais tarde, nas redes sociais, começaram a dizer como deveríamos ser para sermos aceitos. A beleza se tornou um produto de consumo e, aos poucos, a aparência física começou a determinar o valor social de cada pessoa. Ser magro, jovem e “saudável” passou a indicar sucesso e poder. Porém, manter esse corpo “ideal” exige tempo, dinheiro e acesso, algo que nem todos têm.
Assim, o padrão de beleza continuou refletindo desigualdades: quem pode investir em si é visto com superioridade.

Hoje, vivemos um paradoxo: muito se fala sobre liberdade, diversidade e aceitação, mas estamos imersos em um mundo que compara e julga corpos o tempo todo.
As redes sociais dão lugar de vitrine aos corpos e reforçam padrões quase impossíveis. Os corpos “perfeitos”, representam a prática de dietas, procedimentos, filtros e cirurgias, práticas essas chamadas de “autocuidado”. Aqueles que não conseguem tal façanha estão expostos a sentimentos de culpa, vergonha e fracasso. Assim, a aparência passou a afetar, ainda mais, a autoestima e o bem-estar psicológico.

Viver em uma sociedade que mede valor pela aparência tem efeitos profundos sobre a saúde mental. Muitas pessoas adoecem tentando alcançar o dito “corpo ideal”: intensa ansiedade, culpa, baixa autoestima, distorção da autoimagem, depressão e transtornos alimentares. Uma vivência de muito sofrimento onde o olhar para si está sempre pautado na comparação com o ideal, alimentando uma excessiva autocrítica e levando a exaustão.

Reconhecer que o padrão de beleza tem raízes históricas e econômicas é importante e, entender que o corpo ideal não existe, é libertador.
Cada corpo é resultado de uma história, de uma rotina, de um contexto que precisam ser considerados em direção ao cuidado e acolhimento e não motivo para culpa ou exclusão.

Você já ouviu falar em TRANSTORNO DO PROCESSAMENTO AUDITIVO CENTRAL (TPAC)?

O diagnóstico é realizado através de avaliação audiológica e do teste de processamento auditivo, nos quais serão avaliadas:  a audição e a capacidade do processamento de informações auditivas. 

* Por Hermínia Bailes, fonoaudióloga.

Você já ouviu falar em TRANSTORNO DO PROCESSAMENTO AUDITIVO CENTRAL (TPAC)?

O Fonoaudiólogo pode te orientar!

          Escutamos com nossos ouvidos, mas é o nosso cérebro que faz o uso da informação que escutamos. Se o cérebro for incapaz de processar corretamente o que foi dito ou se houver algum problema na via auditiva de transmissão do som, a mensagem é perdida ou mal-entendida, ocorrendo o Transtorno do Processamento Auditivo Central. E pode atrapalhar o processo de comunicação oral, a escrita e a leitura, incluindo prejuízo no desempenho escolar e na compreensão da linguagem. 

O diagnóstico é realizado através de avaliação audiológica e do teste de processamento auditivo, nos quais serão avaliadas:  a audição e a capacidade do processamento de informações auditivas. 

O tratamento é feito pelo fonoaudiólogo e por uma equipe multidisciplinar, quando existem outros sintomas associados, promovendo a conversa das orelhas com o cérebro, contribuindo para melhorar a capacidade de aprendizagem e  melhorando a qualidade de vida do sujeito. 

O Transtorno do Processamento Auditivo Central – TPAC – pode ser descrito como uma dificuldade que o sujeito tem em lidar com as informações que chegam através da audição. A audição é normal, mas o cérebro tem dificuldade em processar o que foi ouvido, especialmente em ambientes com muito ruído. 

Precisando de orientações, agende uma sessão com um fonoaudiólogo!

Urgência Psiquiátrica

*Por Alexandre de Rezende

Uma primeira tarefa importante é diferenciar os conceitos de urgência e emergência psiquiátrica.

Emergência psiquiátrica é qualquer situação de natureza psiquiátrica em que existe um risco significativo (de morte ou dano grave) para o próprio paciente ou para terceiros, demandando algum tipo de intervenção terapêutica imediata. Assim sendo, são condições inadiáveis, não se pode esperar. O tempo é medido em minutos ou horas.

Exemplos de emergência psiquiátrica: situações de violência envolvendo quadros psicóticos, juízo crítico acentuadamente comprometido, situações de graves autoagressões, tentativas objetivas de suicídio, quadros confusionais (em que há uma causa orgânica e a pessoa se encontra desorientada, oscilando o nível de consciência); além dos estados de estupor depressivo (cuja gravidade dos sintomas impede que o paciente esteja responsivo aos estímulos ambientais) ou excitação maníaca (dentro de um quadro de transtorno do humor bipolar).

Nesses casos, a melhor conduta dos familiares, ou de outras pessoas que testemunhem a intercorrência, não é fazer contato com a equipe que assiste o paciente, seja ele um psiquiatra e/ou psicólogo. Um atraso na resposta desse profissional pode custar minutos valiosos. O mais indicado nessas situações é conduzir o paciente, seja por meios próprios ou a partir do acionamento de uma ambulância, a um serviço especializado, para que o atendimento por uma equipe treinada seja muito rápido. A intervenção indicada pode incluir a realização de exames complementares e/ou o uso de medicamentos, até mesmo injetáveis.

Urgência psiquiátrica é uma condição que implica riscos menores e que necessitam de intervenções em curtos prazos (com o tempo medido em algumas horas ou pouco dias).

Exemplos de urgência psiquiátrica: quadros agudos de ansiedade, ataques de pânico, síndromes conversivas e sintomas psicóticos (que não envolvam agressividade).

 

Em ambas as situações anteriormente descritas, para uma atitude assertiva diante de uma emergência ou urgência psiquiátrica, é importante que se conheça a rede de Saúde Mental da sua cidade. Por exemplo, saber onde funciona um serviço que presta atendimentos a essas condições, seja público ou privado.

Deve-se saber que 192 é o telefone do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). Esse é um serviço público gratuito e atende emergências médicas em geral 24 horas por dia. Além de realizar um primeiro atendimento e algum transporte necessário, o SAMU também oferece orientações por telefone sobre primeiros socorros. Em casos de planos de saúde, é muito relevante saber da existência de algum telefone que se possa acessar em casos de emergência e urgência, seja para buscar maiores orientações ou solicitar meios de remoção de um paciente.

Num contexto de atendimento de uma emergência psiquiátrica, são objetivos fundamentais por parte da equipe que está prestando a assistência:

  • Identificação do problema em questão e estabelecimento de uma hipótese diagnóstica;
  • Exclusão de uma causa orgânica para esse evento, o que pode envolver a realização de exames complementares;
  • Estabilização do quadro;
  • Encaminhamento para continuidade do tratamento da condição que desencadeou aquele atendimento. Esse encaminhamento pode ser para uma internação hospitalar, para um acompanhamento ambulatorial, entre outros.

Por fim, temos as chamadas condições eletivas, em que a rapidez da intervenção não é um critério essencialmente importante. Como exemplos, podemos citar quadros de ansiedade, sintomas depressivos de longa duração, informações sobre medicações e efeitos colaterais, e fornecimento de receitas.

Um ponto importante a ser destacado: converse com seu psiquiatra ou psicólogo sobre o que fazer em caso de uma emergência ou urgência psiquiátrica. Qual número de telefone acessar, para quem ligar, com quem fazer contato, para onde ir ou levar alguém na vigência de alguma dessas situações.

Também um outro elemento a ser acordado com o médico assistente: qual contato deve ser acionado no caso de efeito colateral de algum tratamento, medicamentoso ou não, por exemplo?

É fundamental lembrar que mudanças terapêuticas mais profundas, como a troca de uma medicação, devem ser feitas a partir da reunião de informações mais detalhadas, o que é obtido apenas em uma consulta. Trocas de mensagens por aplicativos deve ser algo pontual e breve. Do contrário, isso pode trazer prejuízos expressivos ao tratamento.

O que nos alerta a série Adolescência?

A geração atual de adolescentes nos convoca como sociedade para conhecer seus símbolos e comportamentos próprios e isso é retratado na série Adolescência. E você se sente preparado para isso?

* Por Diana Lopes, psicóloga.

O que nos alerta a série Adolescência?

 No último mês muito ouvimos falar sobre a série Adolescência da plataforma Netflix. Do roteiro brilhante por contar uma história trágica sem nenhuma cena explícita passando pela maneira como foi filmada, o tal do plano sequência, até nos provocar para olhar para a adolescência nos dias atuais.

Não pretendo aqui utilizar daquelas expressões utilizadas para nomear as gerações dos atuais adolescentes que são filhos de determinada geração de pais, quero olhar para a Adolescência em sua complexidade. Assistir à série me colocou em uma reflexão profunda sobre o quanto estamos distanciados do mundo de nossos adolescentes, de suas linguagens (de emojis), de suas angústias (Insels, redpills, bluepills, teoria do 80/20, política do cancelamento, cyberbullying, manosfera), do modo como estão se situando existencialmente (hikikomoro).

Como etapa do desenvolvimento humano é considerada a mais longa, se inicia por volta dos 14 anos e, atualmente, se estende até os 24 anos ou até mais tarde. Pela psicologia e estudiosos da adolescência, é considerada uma etapa crítica de nosso momento de vida tanto pelas transformações físicas como pela revolução cognitiva com o surgimento do pensamento abstrato.

Outra dimensão muito importante é a do vínculo afetivo,  pois se caracteriza pela ruptura de nossa corregulaçao afetiva da infância estabelecida, até esse período, com nossas figuras significativas para uma corregulaçao afetiva que se caracteriza por uma ordenação oscilante da experiência afetiva que impacta no sentido de identidade pessoal.

Na adolescência, há um caminho que se abre para construção de um sentido de organização pessoal mais viável e autônomo para as relações estabelecidas nessa etapa e para as futuras. Há uma ruptura com a maneira anterior da infância em que se caracteriza em termos de proximidade com as figuras significativas. E isso produz discrepâncias na experiência interna do adolescente que se sente em constante conflito interno.

Agora considerando esse cenário próprio do desenvolvimento humano, façamos uma reflexão sobre a atualidade e as interferências das complexas transformações sociais e tecnológicas na construção da identidade pessoal de nossos adolescentes e em seus processos internos, emocionais e afetivos. Precisamos nos colocar em alerta e nos dedicar a acessar, explorar e conhecer o mundo particular da adolescência.

A geração atual de adolescentes nos convoca como sociedade para conhecer seus símbolos e comportamentos próprios e isso é retratado na série Adolescência. E você se sente preparado para isso?