Entre trends e transtornos: quando o feed começa a dar diagnósticos.

Você já assistiu a um vídeo no TikTok que começava assim: “Se você faz isso, você tem TDAH”. Ou aquele carrossel no Instagram: “5 sinais de que você pode ser autista e não sabe”. Se em algum momento você pensou “Nossa… sou eu”, saiba que você não está sozinho.

* * Texto por Pedro Martins, em entrevista à Dra. Shirlene Vianna Moreira, neuropsicóloga.

Entre trends e transtornos: quando o feed começa a dar diagnósticos

Você já assistiu a um vídeo no TikTok que começava assim: “Se você faz isso, você tem TDAH”. Ou aquele carrossel no Instagram: “5 sinais de que você pode ser autista e não sabe”. Se em algum momento você pensou “Nossa… sou eu”, saiba que você não está sozinho.

Nos últimos anos, conteúdos sobre saúde mental e neurodivergência se multiplicaram nas redes sociais. E isso tem um lado muito positivo. Falar sobre ansiedade, TDAH, autismo, depressão e altas habilidades deixou de ser tabu e passou a naturalizar pessoas que vivem dentro desses espectros. A informação ficou mais acessível e as pessoas encontraram identificação, acolhimento e comunidade. 

Só no Brasil, por exemplo, existem 2,4 milhões de pessoas convivendo com transtorno do espectro autista (TEA) segundo o Censo de 2022 do IBGE. Mas, no meio de tanta informação, surgiu também um fenômeno delicado: a banalização dos autodiagnósticos.

Quando o algoritmo vira “consultório”

Segundo a neuropsicóloga, Dra. Shirlene Vianna, é cada vez mais comum que pacientes procurem avaliação já afirmando “Eu tenho TDAH”,  “Sou autista”, “Acho que tenho borderline”. Muitas vezes, essa percepção nasce do consumo de conteúdos curtos e simplificados nas redes. O problema é que vídeos curtos precisam caber no ritmo acelerado do feed. E, para isso, podem causar falhas de comunicação e induzir ao autodiagnóstico.

Assim, aspectos da própria personalidade podem ser confundidos. Por exemplo, uma pessoa muito distraída pode achar que tem TDAH, ou uma pessoa com uma carga muito elevada de trabalho confundir cansaço com burnout. 

A Dra. Shirlene explica que “transtornos neurodivergentes são transtornos advindos do neurodesenvolvimento. A pessoa não fica neurodivergente, mas ela sempre foi. É uma situação que causa grande sofrimento[…]”.

Neurodivergência não é tendência

Quando um diagnóstico é tratado como rótulo de identificação estética ou traço de personalidade “cool”, corre-se o risco de minimizar a experiência de quem convive com desafios significativos no dia a dia.

É diferente dizer “eu me distraio às vezes” e dizer “tenho um transtorno que impacta minha vida acadêmica, profissional, social e emocional de forma persistente.”. Parece sutil, mas é uma diferença profunda.

Mas então… sentir não é válido?

Sentir é sempre válido. Se você se identifica com um conteúdo, isso pode ser um ponto de partida para reflexão e um convite para olhar para si com mais cuidado, como um sinal de que algo merece atenção. O que não é saudável é transformar identificação em diagnóstico automático.

Principalmente quando falamos de públicos jovens. A adolescência e o início da vida adulta são fases intensas de construção de identidade. É natural experimentar, testar, oscilar, se questionar. Nem todo comportamento diferente é um transtorno e nem toda dificuldade é um diagnóstico, explica a neuropsicóloga.

O mais importante é, se tiver dúvidas procure um profissional especializado, como a Clínica Rezende, por exemplo, e faça uma avaliação neuropsicológica. 

Como funciona uma avaliação neuropsicológica?

Ao contrário do que muitos imaginam, uma avaliação neuropsicológica não é uma conversa rápida com um veredito no final. Ela é um processo estruturado que pode incluir:

  • Entrevista clínica;
  • Aplicação de testes neuropsicológicos;
  • Investigação de hipóteses diagnósticas;
  • Sessão de devolutiva;
  • Elaboração de relatório.

A avaliação analisa a pessoa de forma global, suas funções cognitivas, inteligência, personalidade, humor, histórico de vida e contexto familiar. Os testes utilizam parâmetros específicos de acordo com idade e escolaridade.

Além disso, existe uma diferença importante entre comportamento situacional, que oscila conforme contexto, e o sinal clínico persistente e presente em múltiplos ambientes ao longo da história do indivíduo.

Todos esses aspectos precisam ser avaliados através das entrevistas com o paciente e seus familiares, reflete Shirlene. 

Conscientização ou desinformação?

A internet democratizou o acesso à informação sobre saúde mental e isso é valioso. Mas também abriu espaço para conteúdos produzidos por pessoas sem formação clínica ou experiência profissional.

Quando falamos de transtornos, estamos lidando com conceitos técnicos que têm implicações clínicas, sociais e identitárias. Não são apenas “características de personalidade”.

Criadores de conteúdo têm uma responsabilidade ética importante. Conscientizar é informar com cuidado, contextualizar e incentivar a busca por avaliação profissional quando necessário. Quando conceitos são usados de forma imprecisa, o sofrimento real pode ser minimizado. Por isso, vale sempre perguntar: “Quem está falando?” / “Qual é a formação dessa pessoa?” / “Existe base científica?”

Informação não substitui avaliação

Consumir conteúdo pode ampliar repertório e ser um canal para a busca de uma ajuda, mas não substitui avaliação profissional.

Dra. Shirlene aconselha para que, caso tenha dúvida, sofrimento persistente ou impacto significativo na vida, o caminho mais seguro é buscar orientação com psicólogo credenciado pelo Conselho Regional de Psicologia ou encaminhamento médico adequado.

Saúde mental não é trend e diagnóstico não é identidade estética. Cuidar de si exige mais profundidade do que um vídeo curto de 45 segundos.

E talvez o passo mais maduro não seja dizer “eu tenho isso”, mas sim questionar:
“Eu preciso de ajuda para entender melhor o que estou vivendo?” Essa pergunta, sim, pode mudar tudo.

 

TDAH em adultos

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* Por Sabrina Gomes

TDAH EM ADULTOS

O transtorno do déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) é um fenômeno muito pesquisado e divulgado na atualidade. Com o avanço dos estudos das neurociências, sabemos que o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, ou seja, tem sua origem a partir de alterações de processos iniciais do desenvolvimento cerebral. Assim, os prejuízos no controle da atenção e no controle motor (sintomas comuns do transtorno) podem ser observados já nos primeiros anos de vida, tornando-se mais evidentes ao longo do período escolar.

O investimento em divulgações de informações a respeito do diagnóstico e tratamento do TDAH nas primeiras fases da vida (infância e adolescência) tem se mostrado muito importante para educar a população quanto aos sinais e sintomas do transtorno, além de incentivar a busca por avaliação e tratamento precoces do TDAH, proporcionando melhor qualidade de vida para as pessoas com o transtorno. Entretanto, apesar das publicações priorizarem os impactos do TDAH nas fases iniciais da vida, pesquisas mostram que o transtorno pode persistir na fase adulta e que adultos portadores de TDAH experimentam grandes dificuldades nas esferas social, profissional e familiar, tais como: conflitos familiares, problemas de relacionamentos conjugais, dificuldades profissionais devido à desatenção e à dificuldade para respeitar prazos e rotinas, entre outras. A seguir, apresentaremos exemplos de como é o cotidiano de adultos com TDAH.

O PERFIL COMPORTAMENTAL DO ADULTO COM TDAH

Como vimos, o TDAH é um transtorno que tem seu início na infância, mas que pode persistir na fase adulta (algo em torno de 60 a 70% dos casos). Estudos recentes de imagem encontraram alterações semelhantes em estruturas cerebrais em crianças e em adultos com TDAH, o que confirma a possibilidade de persistência do transtorno ao longo da vida. Essas regiões cerebrais são importantes na regulação das emoções e na organização do nosso comportamento para a execução de tarefas, o que ajuda a explicar os prejuízos em funcionamento social, acadêmico e/ou profissional das pessoas com o transtorno.

Na fase adulta, os sintomas de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade se expressam nas atividades próprias dessa fase da vida, com variações na apresentação e intensidade dos sintomas de pessoa para pessoa:

Desatenção

Fica evidente em atividades que exigem sustentação da atenção e organização, além de dificuldades de memória. As pessoas com o transtorno estão em geral atrasadas com prazos e encontros, despreparadas para atividades a serem realizadas proximamente e apresentam dificuldades para atingir objetivos e fazer planos.

Hiperatividade-impulsividade

A hiperatividade pode se mostrar no excesso de trabalho ou de outras atividades (já ouviram falar em indivíduos workaholics?). Com relação à impulsividade, sabe-se que os adultos com TDAH se envolvem mais em acidentes de trânsito, pela direção impulsiva de veículos. Além disso, a impulsividade também pode se manifestar em términos prematuros de relacionamentos, uma vez que os indivíduos se mostram mais reativos em seus sentimentos, mais irritáveis e facilmente frustrados pelos acontecimentos.

Fica claro que o TDAH em adultos é responsável por prejuízos importantes em diversos aspectos da vida da pessoa portadora do transtorno, provocando sofrimento para o indivíduo e para pessoas próximas. Mas atenção: o diagnóstico deve ser realizado a partir de avaliação especializada, com critérios bem definidos. O diagnóstico médico requer observação clínica, investigação de informações do processo de desenvolvimento do paciente e pode ter o auxílio de testes psicológicos para maiores esclarecimentos do caso.

Referências bibliográficas:

HOOGMAN, Martine et al. Subcortical brain volume differences in participants with attention deficit hyperactivity disorder in children and adults: a cross-sectional mega-analysis. The Lancet Psychiatry, v. 4, n. 4, p. 310-319, 2017.

MATTOS, Paulo et al. Painel brasileiro de especialistas sobre diagnóstico do transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) em adultos. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, v. 28, n. 1, p. 50-60, 2006.