Depressão

A DEPRESSÃO é um transtorno complexo, uma síndrome composta por diversos sintomas, que causa grande sofrimento e prejuízo na vida do indivíduo e das pessoas com as quais ele convive.

* Por Alexandre de Rezende, Psiquiatra.

DEPRESSÃO

Primeiramente, é importante destacar que há uma grande diferença entre tristeza e depressão. A tristeza é uma emoção normal e fisiológica, e principalmente passageira, esperada diante de um evento adverso da nossa vida, surge como consequência a uma perda, uma decepção ou desapontamento, uma lembrança de algo ruim que aconteceu ou mesmo um pensamento não adequado que ativamos de forma automática. Ela tem por objetivo sinalizar a necessidade de recebermos algum tipo de apoio e ajuda, e apontar o quanto aquela situação é desconfortável para nós.

Por outro lado, a DEPRESSÃO é um transtorno complexo, uma síndrome composta por diversos sintomas, que causa grande sofrimento e prejuízo na vida do indivíduo e das pessoas com as quais ele convive. Ou seja, trata-se de uma condição grave que envolve fatores genéticos, psicológicos e ambientais em sua origem.

A Depressão é uma condição psiquiátrica muito frequente. Estima-se que, no Brasil, em torno de 18,4% das pessoas vão ter Depressão ao longo da vida, com idade média de início em torno de 24 anos.

Características do DSM-5*

O Transtorno Depressivo Maior se caracteriza pela presença de alguns sintomas por um período de pelo menos 2 semanas e representam uma mudança em relação ao funcionamento anterior. Os dois sintomas mais importantes são:

  1. Humor deprimido (sentir-se triste, vazio, sem esperança); OU
  2. Perda de interesse ou prazer. 

Além desses, outros sintomas incluem alterações do peso ou apetite, alterações do sono, agitação ou lentidão psicomotora, fadiga, sentimentos de inutilidade ou culpa, diminuição da capacidade para pensar ou se concentrar, pensamentos de morte e ideação suicida.

É importante destacar que esses sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

Ainda há muito estigma sobre um quadro de Depressão, mas esse problema não deve ser entendido como um sinal de fraqueza ou fragilidade na forma de lidar com os problemas da vida, nem mesmo uma condição que se possa facilmente reverter tão somente pela própria força de vontade. A pessoa com Depressão, na maior parte das vezes, precisa de ajuda para conseguir reagir, enfrentar esse transtorno e ter uma melhora significativa.

A importância dos pensamentos numa Depressão

Quando uma pessoa vivencia um quadro depressivo, tem uma maior tendência de avaliar as situações de forma negativista e pessimista, em geral irrealista. Nesse caso, vivencia-se emoções desconfortáveis de modo desnecessário e tende a expressar comportamentos desadaptativos que podem trazer prejuízos.

Os modos distorcidos de pensar costumam envolver um ou mais dos seguintes temas:

  • Interpretações sobre acontecimentos

Quando algo de ruim acontece em um determinado contexto, o indivíduo com Depressão tende a pensar que em situações semelhantes, o desfecho sempre será igualmente ruim. A mesma lógica não se observa diante de um cenário onde algo bom acontece, pelo contrário o indivíduo que sofre de depressão pode ignorar ou minimizar acontecimentos bons.

  • Autoavaliação excessivamente ruim

As pessoas com Depressão costumam atribuir a si mesmas, de forma não adequada, a maior parte da responsabilidade (culpa) pelas coisas ruins que acontecem consigo ou, até mesmo, com as pessoas ao seu redor. Além disso, tendem a repetir internamente para si mesmas seus fracassos, passam a lembrar em exagero seus erros do passado.

Veja a seguir alguns exemplos de distorções de pensamento comumente presentes em pessoas com Depressão (Beck, 1997):

  • Conclusão precipitada

Após uma tentativa frustrada de conquistar uma pessoa: “Não faço sucesso com mulheres, nunca vou conseguir ficar com ninguém”.

  • Menosprezar o positivo

Após ter se dedicado aos estudos e ter conseguido uma excelente nota: “Só tirei essa nota porque a prova estava fácil, o professor facilitou, qualquer pessoa tiraria uma nota boa”.

  • Exagero

Ao enfrentar um desconforto em função de uma adversidade momentânea: “Minha vida é assim, isso vai durar para sempre”.

  • Visão em foco

Após ouvir a cobrança do seu chefe, ignorando as várias vezes em que ele ficou quieto ou mesmo elogiou ao ver algo bom acontecendo: “Meu chefe sempre reclama de tudo”.

  • Aprisionar-se no passado

Ficar repetindo internamente de forma exagerada e inútil pensamentos sobre o passado e deixando de focar em ações práticas que podem favorecer a resolução dos problemas atuais: “Sou todo errado mesmo, deveria ter aproveitado a oportunidade, deveria ter me dedicado mais”.

  • Trazendo para si toda a responsabilidade

Após uma interação social que não aconteceu da forma desejada: “Ela não falou comigo porque não tenho carisma, não tenho atrativos”.

É possível questionar esses pensamentos disfuncionais com o intuito de modificá-los, principalmente quando eles não se sustentam por argumentos lógicos e fatos observáveis. A psicoterapia pode ajudar na identificação dos erros de pensamentos que geram sentimentos desconfortáveis. Desse modo, o resultado poderá ser emoções e comportamentos menos prejudiciais.

Ao conseguir desenvolver pensamentos mais realistas frente às situações vivenciadas, é possível reduzir a intensidade de sentimentos desconfortáveis, ou mesmo ter sentimentos diferentes e, por conseguinte, reações comportamentais menos prejudiciais.

O modo de pensar é muito importante em nossas vidas, inclusive no que se refere às expectativas que temos em relação ao futuro. Expectativas realistas e positivas costumam gerar motivação para a ação, o que pode favorecer a concretização dos planejamentos.

Como o problema pode estar sendo mantido?

Quando estamos vivendo uma situação qualquer, podemos ativar pensamentos, reações fisiológicas, comportamentos/atitudes e emoções. Mesmo sem saber ao certo qual será ativado primeiro, quando qualquer um dos quatro aspectos é ativado, os outros três inevitavelmente também serão.

Diante de um ambiente com fatores estressores, algum evento de vida importante, uma perda, uma condição de saúde, um rompimento familiar, a pessoa tende a desenvolver pensamentos de desamparo, desamor ou menos-valia (“nada dá certo na minha vida”, “ninguém gosta mesmo de mim”, “minha vida sempre será de sofrimento”). Isso vai levar a sentimentos de tristeza, desalento, vazio, irritação e culpa. Então, serão esperadas reações fisiológicas disfuncionais, como alterações de sono e apetite, redução de libido, redução da ativação de neurotransmissores (como serotonina e noradrenalina). Como consequência, a pessoa pode tomar decisões inadequadas, como desistir de um projeto, não se cuidar, evitar o contato com as pessoas.

É essencial aprender a lidar com todas essas variáveis. Deve-se estabelecer intervenções nesses aspectos visando a mudança dos fatores mantenedores da Depressão. Então, se a ativação de uma das quatro variáveis inevitavelmente ativa as outras três, a mudança “positiva” de uma delas também afetará “positivamente” aquelas restantes.

Por exemplo: diante de uma nota ruim na faculdade, uma pessoa pode pensar automaticamente que nunca será capaz de terminar seu curso. Daí passa a ficar triste e se lembrar de todas as vezes que vivenciou um fracasso na sua vida. Terá redução do apetite, o sono ficará prejudicado por ficar remoendo tudo o que já aconteceu de errado com ela, e deixará de sair com os amigos. Uma outra alternativa, agora mais saudável, será pensar que todo mundo pode estar num dia ruim e não tirar uma nota boa. Pode analisar que terá outras oportunidades e que, de uma próxima vez, será possível melhorar seu desempenho, até mesmo porque no passado já teve outras notas boas.

Como uma pessoa posso lidar com a Depressão?

A Depressão é um transtorno no qual há uma baixa de energia e disposição que dificulta a realização das tarefas. Envolver-se nas atividades do dia a dia pode parecer “sem graça” ou “sem propósito”.  Entretanto, é justamente a ação que favorece o aumento da motivação para uma ativação adequada da disposição. É comum o paciente com Depressão trazer o discurso de que precisa ter energia para fazer algo, quando é o contrário, é preciso fazer algo para se ter mais energia. É o que chamamos de ativação comportamental, e falamos um pouco mais sobre isso logo abaixo.

Assim, começar com alguns “pequenos passos” é essencial, utilizando-se a energia e os recursos que estiverem à disposição. Caso você esteja com Depressão, pode não estar com muita energia, mas provavelmente pode ter o suficiente para fazer, por exemplo, uma pequena caminhada no quarteirão de casa ou pegar o telefone para falar com um amigo.

Nesse contexto, o indivíduo deve ter cuidado para não se cobrar demais ou criar muitas expectativas. Deve-se criar metas que serão executadas sem maiores dificuldades. No início, possivelmente a pessoa não fará tudo a que se propõe. Deve-se manter o foco nas suas ações, buscando conduzir uma atividade de cada vez. Um ponto importante é, ao realizar uma tarefa, tentar se recompensar por cada realização bem-sucedida.

O indivíduo com Depressão pode ter o processo de recuperação favorecido pelo suporte social, ou resgaste dos vínculos interpessoais. O terapeuta pode incentivar o paciente a construir relacionamentos íntimos e de confiança. A busca por um tratamento farmacológico pode ser necessária em alguns casos. O tratamento conjunto tende a ser uma boa opção para a superação da Depressão.

Com a psicoterapia, é possível desenvolver estratégias para lidar melhor com os problemas associados à Depressão. Estratégias que auxiliem no questionamento das interpretações distorcidas e favoreçam a mudança dos pensamentos disfuncionais para mais adaptativos serão essenciais para melhorar a autoestima, a autoconfiança e aumentar a ativação comportamental.

Além das estratégias citadas, a pessoa com sintomas depressivos pode obter benefícios com a utilização de algumas práticas. Há inúmeros estudos que apontam que meditação, yoga, atividade física regular, prática da religiosidade e espiritualidade podem reduzir sintomas de depressão.

Ativação comportamental: é uma estratégia própria da terapia cognitivo-comportamental, mas que pode ser perfeitamente utilizada na Psicoeducação.

A ativação comportamental busca incentivar a pessoa deprimida a realizar atividades significativas e prazerosas que provavelmente foram abandonadas nesse período, mesmo sem uma motivação inicial. O paciente sempre vai dizer que está sem ânimo e sem energia, mas o foco deve estar na ação como forma de melhorar o humor, ao invés de esperar a vontade surgir. A lógica é “agir para se sentir melhor” – ou seja, o comportamento vai preceder a mudança de humor.

O objetivo da ativação comportamental é romper o ciclo da evitação e aumentar o contato com reforçadores positivos do ambiente. O primeiro passo é identificar as atividades prazerosas que a pessoa deixou de fazer por desânimo ou tristeza (como ir à academia, ver um filme, sair com amigos, visitar familiares) e tentar a retomada isso, mesmo que inicialmente isso lhe pareça sem graça.

Sugestão de leitura: Vencendo a depressão: manual de terapia cognitivo-comportamental para pacientes e terapeutas. Autores: Daniela Tusi Braga, Analise de Souza Vivian e Ives Cavalcante Passos. Editora Artmed, 2019.

* DSM-5-TR Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais – 5ª edição, Texto Revisado. Publicado em 2023, é um manual elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria para auxiliar no diagnóstico dos transtornos mentais.

Referência bibliográfica:

Este texto foi baseado na seguinte referência:

COSTA, R.T. Capítulo 8 – Depressão. In: CARVALHO, M.R.; MALAGRIS, L.E.N.; RANGÉ, B.P. Psicoeducação em Terapia Cognitivo-Comportamental. – Novo Hamburgo: Sinopsys, 2019.

 

Entre trends e transtornos: quando o feed começa a dar diagnósticos.

Você já assistiu a um vídeo no TikTok que começava assim: “Se você faz isso, você tem TDAH”. Ou aquele carrossel no Instagram: “5 sinais de que você pode ser autista e não sabe”. Se em algum momento você pensou “Nossa… sou eu”, saiba que você não está sozinho.

* * Texto por Pedro Martins, em entrevista à Dra. Shirlene Vianna Moreira, neuropsicóloga.

Entre trends e transtornos: quando o feed começa a dar diagnósticos

Você já assistiu a um vídeo no TikTok que começava assim: “Se você faz isso, você tem TDAH”. Ou aquele carrossel no Instagram: “5 sinais de que você pode ser autista e não sabe”. Se em algum momento você pensou “Nossa… sou eu”, saiba que você não está sozinho.

Nos últimos anos, conteúdos sobre saúde mental e neurodivergência se multiplicaram nas redes sociais. E isso tem um lado muito positivo. Falar sobre ansiedade, TDAH, autismo, depressão e altas habilidades deixou de ser tabu e passou a naturalizar pessoas que vivem dentro desses espectros. A informação ficou mais acessível e as pessoas encontraram identificação, acolhimento e comunidade. 

Só no Brasil, por exemplo, existem 2,4 milhões de pessoas convivendo com transtorno do espectro autista (TEA) segundo o Censo de 2022 do IBGE. Mas, no meio de tanta informação, surgiu também um fenômeno delicado: a banalização dos autodiagnósticos.

Quando o algoritmo vira “consultório”

Segundo a neuropsicóloga, Dra. Shirlene Vianna, é cada vez mais comum que pacientes procurem avaliação já afirmando “Eu tenho TDAH”,  “Sou autista”, “Acho que tenho borderline”. Muitas vezes, essa percepção nasce do consumo de conteúdos curtos e simplificados nas redes. O problema é que vídeos curtos precisam caber no ritmo acelerado do feed. E, para isso, podem causar falhas de comunicação e induzir ao autodiagnóstico.

Assim, aspectos da própria personalidade podem ser confundidos. Por exemplo, uma pessoa muito distraída pode achar que tem TDAH, ou uma pessoa com uma carga muito elevada de trabalho confundir cansaço com burnout. 

A Dra. Shirlene explica que “transtornos neurodivergentes são transtornos advindos do neurodesenvolvimento. A pessoa não fica neurodivergente, mas ela sempre foi. É uma situação que causa grande sofrimento[…]”.

Neurodivergência não é tendência

Quando um diagnóstico é tratado como rótulo de identificação estética ou traço de personalidade “cool”, corre-se o risco de minimizar a experiência de quem convive com desafios significativos no dia a dia.

É diferente dizer “eu me distraio às vezes” e dizer “tenho um transtorno que impacta minha vida acadêmica, profissional, social e emocional de forma persistente.”. Parece sutil, mas é uma diferença profunda.

Mas então… sentir não é válido?

Sentir é sempre válido. Se você se identifica com um conteúdo, isso pode ser um ponto de partida para reflexão e um convite para olhar para si com mais cuidado, como um sinal de que algo merece atenção. O que não é saudável é transformar identificação em diagnóstico automático.

Principalmente quando falamos de públicos jovens. A adolescência e o início da vida adulta são fases intensas de construção de identidade. É natural experimentar, testar, oscilar, se questionar. Nem todo comportamento diferente é um transtorno e nem toda dificuldade é um diagnóstico, explica a neuropsicóloga.

O mais importante é, se tiver dúvidas procure um profissional especializado, como a Clínica Rezende, por exemplo, e faça uma avaliação neuropsicológica. 

Como funciona uma avaliação neuropsicológica?

Ao contrário do que muitos imaginam, uma avaliação neuropsicológica não é uma conversa rápida com um veredito no final. Ela é um processo estruturado que pode incluir:

  • Entrevista clínica;
  • Aplicação de testes neuropsicológicos;
  • Investigação de hipóteses diagnósticas;
  • Sessão de devolutiva;
  • Elaboração de relatório.

A avaliação analisa a pessoa de forma global, suas funções cognitivas, inteligência, personalidade, humor, histórico de vida e contexto familiar. Os testes utilizam parâmetros específicos de acordo com idade e escolaridade.

Além disso, existe uma diferença importante entre comportamento situacional, que oscila conforme contexto, e o sinal clínico persistente e presente em múltiplos ambientes ao longo da história do indivíduo.

Todos esses aspectos precisam ser avaliados através das entrevistas com o paciente e seus familiares, reflete Shirlene. 

Conscientização ou desinformação?

A internet democratizou o acesso à informação sobre saúde mental e isso é valioso. Mas também abriu espaço para conteúdos produzidos por pessoas sem formação clínica ou experiência profissional.

Quando falamos de transtornos, estamos lidando com conceitos técnicos que têm implicações clínicas, sociais e identitárias. Não são apenas “características de personalidade”.

Criadores de conteúdo têm uma responsabilidade ética importante. Conscientizar é informar com cuidado, contextualizar e incentivar a busca por avaliação profissional quando necessário. Quando conceitos são usados de forma imprecisa, o sofrimento real pode ser minimizado. Por isso, vale sempre perguntar: “Quem está falando?” / “Qual é a formação dessa pessoa?” / “Existe base científica?”

Informação não substitui avaliação

Consumir conteúdo pode ampliar repertório e ser um canal para a busca de uma ajuda, mas não substitui avaliação profissional.

Dra. Shirlene aconselha para que, caso tenha dúvida, sofrimento persistente ou impacto significativo na vida, o caminho mais seguro é buscar orientação com psicólogo credenciado pelo Conselho Regional de Psicologia ou encaminhamento médico adequado.

Saúde mental não é trend e diagnóstico não é identidade estética. Cuidar de si exige mais profundidade do que um vídeo curto de 45 segundos.

E talvez o passo mais maduro não seja dizer “eu tenho isso”, mas sim questionar:
“Eu preciso de ajuda para entender melhor o que estou vivendo?” Essa pergunta, sim, pode mudar tudo.

 

“Rico gosta de gente magra” – O corpo e o poder.

Você já ouviu essa frase ou já parou para refletir sobre o assunto? De que o padrão de beleza carrega significados que vão muito além da estética?

* Por Laís Helena, Psicóloga.

Você já ouviu essa frase ou já parou para refletir sobre o assunto? De que o padrão de beleza carrega significados que vão muito além da estética?

Ao longo da história, o que consideramos “belo” nunca foi apenas uma questão de gosto ou estética. O padrão de beleza sempre refletiu os valores sociais, morais e econômicos de cada época. O corpo, especialmente o feminino, tem sido usado como símbolo de poder, status e pertencimento, revelando muito mais sobre a sociedade do que apenas beleza.

Nas civilizações antigas e medievais a comida era escassa, e poder se alimentar bem era um privilégio de poucos. Assim, os nobres, em sua maioria, tinham corpos grandes e fartos, indicando que podiam comer bem e viver sem o desgaste do trabalho físico.
Por outro lado, os corpos magros representavam outra realidade, a da escassez, da privação e do trabalho. 

Com o passar dos séculos, especialmente depois da Revolução Industrial, quando o novo modelo econômico passou a valorizar produtividade, racionalidade e disciplina, o ideal de corpo também mudou. O tamanho do corpo passou a demonstrar virtude, inteligência, eficiência ou a falta delas. Nesse momento, o que antes representava fartura passou a simbolizar excesso e falta de controle. A magreza deixou de ser um sinal de escassez e passou a indicar autodomínio, como se o controle sobre o corpo fosse prova de mérito e força de vontade. Ou seja, o corpo tornou-se, então, um reflexo da ética do trabalho capitalista.

No século XX, com o crescimento da mídia e da cultura de massa, o corpo ganhou um novo papel: o de mercadoria. As imagens nas revistas, na TV e, mais tarde, nas redes sociais, começaram a dizer como deveríamos ser para sermos aceitos. A beleza se tornou um produto de consumo e, aos poucos, a aparência física começou a determinar o valor social de cada pessoa. Ser magro, jovem e “saudável” passou a indicar sucesso e poder. Porém, manter esse corpo “ideal” exige tempo, dinheiro e acesso, algo que nem todos têm.
Assim, o padrão de beleza continuou refletindo desigualdades: quem pode investir em si é visto com superioridade.

Hoje, vivemos um paradoxo: muito se fala sobre liberdade, diversidade e aceitação, mas estamos imersos em um mundo que compara e julga corpos o tempo todo.
As redes sociais dão lugar de vitrine aos corpos e reforçam padrões quase impossíveis. Os corpos “perfeitos”, representam a prática de dietas, procedimentos, filtros e cirurgias, práticas essas chamadas de “autocuidado”. Aqueles que não conseguem tal façanha estão expostos a sentimentos de culpa, vergonha e fracasso. Assim, a aparência passou a afetar, ainda mais, a autoestima e o bem-estar psicológico.

Viver em uma sociedade que mede valor pela aparência tem efeitos profundos sobre a saúde mental. Muitas pessoas adoecem tentando alcançar o dito “corpo ideal”: intensa ansiedade, culpa, baixa autoestima, distorção da autoimagem, depressão e transtornos alimentares. Uma vivência de muito sofrimento onde o olhar para si está sempre pautado na comparação com o ideal, alimentando uma excessiva autocrítica e levando a exaustão.

Reconhecer que o padrão de beleza tem raízes históricas e econômicas é importante e, entender que o corpo ideal não existe, é libertador.
Cada corpo é resultado de uma história, de uma rotina, de um contexto que precisam ser considerados em direção ao cuidado e acolhimento e não motivo para culpa ou exclusão.

O que nos alerta a série Adolescência?

A geração atual de adolescentes nos convoca como sociedade para conhecer seus símbolos e comportamentos próprios e isso é retratado na série Adolescência. E você se sente preparado para isso?

* Por Diana Lopes, psicóloga.

O que nos alerta a série Adolescência?

 No último mês muito ouvimos falar sobre a série Adolescência da plataforma Netflix. Do roteiro brilhante por contar uma história trágica sem nenhuma cena explícita passando pela maneira como foi filmada, o tal do plano sequência, até nos provocar para olhar para a adolescência nos dias atuais.

Não pretendo aqui utilizar daquelas expressões utilizadas para nomear as gerações dos atuais adolescentes que são filhos de determinada geração de pais, quero olhar para a Adolescência em sua complexidade. Assistir à série me colocou em uma reflexão profunda sobre o quanto estamos distanciados do mundo de nossos adolescentes, de suas linguagens (de emojis), de suas angústias (Insels, redpills, bluepills, teoria do 80/20, política do cancelamento, cyberbullying, manosfera), do modo como estão se situando existencialmente (hikikomoro).

Como etapa do desenvolvimento humano é considerada a mais longa, se inicia por volta dos 14 anos e, atualmente, se estende até os 24 anos ou até mais tarde. Pela psicologia e estudiosos da adolescência, é considerada uma etapa crítica de nosso momento de vida tanto pelas transformações físicas como pela revolução cognitiva com o surgimento do pensamento abstrato.

Outra dimensão muito importante é a do vínculo afetivo,  pois se caracteriza pela ruptura de nossa corregulaçao afetiva da infância estabelecida, até esse período, com nossas figuras significativas para uma corregulaçao afetiva que se caracteriza por uma ordenação oscilante da experiência afetiva que impacta no sentido de identidade pessoal.

Na adolescência, há um caminho que se abre para construção de um sentido de organização pessoal mais viável e autônomo para as relações estabelecidas nessa etapa e para as futuras. Há uma ruptura com a maneira anterior da infância em que se caracteriza em termos de proximidade com as figuras significativas. E isso produz discrepâncias na experiência interna do adolescente que se sente em constante conflito interno.

Agora considerando esse cenário próprio do desenvolvimento humano, façamos uma reflexão sobre a atualidade e as interferências das complexas transformações sociais e tecnológicas na construção da identidade pessoal de nossos adolescentes e em seus processos internos, emocionais e afetivos. Precisamos nos colocar em alerta e nos dedicar a acessar, explorar e conhecer o mundo particular da adolescência.

A geração atual de adolescentes nos convoca como sociedade para conhecer seus símbolos e comportamentos próprios e isso é retratado na série Adolescência. E você se sente preparado para isso?

A moda das proteínas: uma crítica nutricional comportamental.

A obsessão contemporânea por proteínas, impulsionada pela indústria  alimentícia e disseminada por uma cultura cada vez mais fitness, tem transformado a alimentação em uma busca incessante por um único macronutriente.

* Por Felipe Barreto, Nutricionista.

Introdução

A obsessão contemporânea por proteínas, impulsionada pela indústria  alimentícia e disseminada por uma cultura cada vez mais fitness, tem transformado a alimentação em uma busca incessante por um único macronutriente. Essa fixação, que encontra eco na criação de produtos como a cerveja proteica, merece uma análise crítica sob a perspectiva da nutrição comportamental.

A Proteína como Protagonista: Uma Narrativa Simplificada

A proteína, indiscutivelmente importante para o organismo, tornou-se o centro das atenções, relegando outros nutrientes a um segundo plano. Essa simplificação da  alimentação, que reduz a complexidade de uma dieta equilibrada a uma única molécula, é um reflexo da nossa cultura fast-food, onde a busca por soluções rápidas e eficazes se sobrepõe à compreensão profunda dos processos nutricionais.

A indústria, nesse contexto, atua como um mestre da manipulação comportamental. Ao criar produtos com alto teor de proteína, ela não apenas atende a uma demanda latente, mas também a amplifica, transformando a proteína em um símbolo de status e de saúde. A cerveja proteica, por exemplo, é um exemplo claro dessa estratégia: um produto que tradicionalmente não é associado à nutrição é revestido de um novo significado, atraindo consumidores em busca de um estilo de vida mais saudável.

O Foco no Nutriente em Detrimento do Alimento

A ênfase excessiva na proteína desvia o olhar do alimento em si, com todas as suas nuances sensoriais e culturais. György, em sua obra, nos lembra que a alimentação é muito mais do que a soma de seus nutrientes. É uma experiência social, cultural e sensorial que influencia profundamente nossa saúde e bem-estar. Ao reduzir o alimento a um mero  veículo de nutrientes, perdemos a oportunidade de apreciar a diversidade culinária e de estabelecer uma relação mais saudável com a comida.

Essa obsessão pela proteína também pode levar a comportamentos alimentares inadequados. A busca incessante por alimentos ricos em proteínas pode levar à exclusão de outros grupos alimentares importantes,como frutas, legumes e grãos, resultando em uma dieta desequilibrada e com deficiências nutricionais.

A Nutrição Comportamental e a Desconstrução dos Mitos

A nutrição comportamental nos oferece ferramentas para entender os mecanismos que levam as pessoas a fazerem escolhas alimentares nem sempre saudáveis. Ao desconstruir os mitos em torno da proteína e ao promover uma abordagem mais holística da alimentação, podemos ajudar os indivíduos a desenvolver hábitos alimentares mais saudáveis e sustentáveis.

Algumas estratégias que podem ser utilizadas pelos nutricionistas comportamentais incluem:

  • Educação nutricional: Promover o conhecimento sobre os diferentes nutrientes e suas funções no organismo, desmistificando a ideia de que a proteína é o único nutriente essencial.
  • Autonomia: Incentivar os indivíduos a tomarem decisões alimentares conscientes, baseadas em suas necessidades e preferências individuais.
  • Mudança de hábitos: Auxiliar os indivíduos a desenvolver hábitos alimentares mais saudáveis através de estratégias como a substituição gradual de alimentos, o planejamento de refeições e a prática da mindfulness.

Conclusão

A moda das proteínas, embora aparentemente inofensiva, pode ter consequências negativas para a saúde e o bem-estar. Ao criticar essa tendência e ao promover uma abordagem mais equilibrada e humanizada da alimentação, os nutricionistas comportamentais podem contribuir para uma mudança de paradigma na forma como pensamos sobre a comida.

É fundamental lembrar que a alimentação é um ato complexo, influenciado por fatores biológicos, psicológicos e sociais. Ao reduzir a alimentação a uma simples equação nutricional, perdemos a oportunidade de desfrutar de uma das maiores alegrias da vida.

Referências: 

Referência: Scrinis, G. (2021). Nutricionismo: a ciência e a política do aconselhamento nutricional. São Paulo: Editora Elefante.

Dificuldades ou transtorno de aprendizagem? Como identificar os sinais e apoiar o seu filho

A identificação precoce das dificuldades ou transtornos de aprendizagem é fundamental para garantir o sucesso acadêmico e emocional das crianças.

* Por Dilaine Alves, Psicopedagoga Clínica e Institucional

A identificação precoce das dificuldades ou transtornos de aprendizagem é fundamental para garantir o sucesso acadêmico e emocional das crianças. Embora ambos os fenômenos possam afetar o desenvolvimento escolar, entender suas diferenças e como tratá-los pode fazer toda a diferença no processo de aprendizagem.

O que são dificuldades de aprendizagem?

As dificuldades de aprendizagem são comumente resultantes de fatores externos, como métodos pedagógicos inadequados, ambientes escolares desfavoráveis ou questões familiares. Estas dificuldades podem ser temporárias e, com a intervenção correta, superadas. Adaptações no ensino, apoio emocional e modificações no ambiente escolar costumam ser eficazes para mitigar esses obstáculos.

Causas e impacto das dificuldades de aprendizagem

De acordo com especialistas como Piaget e Vygotsky, a aprendizagem é uma habilidade natural da criança, que busca entender o mundo ao seu redor. Contudo, quando surgem barreiras no processo cognitivo sejam devido a aspectos emocionais, sociais ou pedagógicos, é essencial que pais e educadores ajam rapidamente para ajustar as estratégias de ensino.

Além disso, problemas físicos ou sensoriais, como dificuldades auditivas ou visuais não identificados, podem afetar a capacidade de aprender de uma criança, dificultando o desenvolvimento da linguagem e da leitura.

Os transtornos de aprendizagem: como identificá-los?

Ao contrário das dificuldades de aprendizagem, os transtornos de aprendizagem possuem uma base neurobiológica e são persistentes. Condições como dislexia, disgrafia e discalculia afetam diretamente as habilidades cognitivas da criança, comprometendo habilidades essenciais como leitura, escrita e matemática, independentemente do esforço ou da qualidade do ensino. Esses transtornos se manifestam de maneira mais clara à medida que as exigências acadêmicas aumentam, tornando-se mais evidentes durante o ensino fundamental.

Principais sinais dos transtornos de aprendizagem

É importante que pais, educadores e profissionais fiquem atentos aos sinais que podem indicar a presença de um transtorno de aprendizagem, como:

  • Dificuldade significativa em ler e compreender textos.
  • Erros frequentes de ortografia e gramática, mesmo com práticas constantes.
  • Escrita desorganizada e ilegível.
  • Dificuldade com conceitos matemáticos, comprometendo até operações simples.
  • Baixa velocidade e precisão na leitura, dificultando a execução de tarefas básicas.

Esses sinais, além de prejudicar o desempenho acadêmico, podem afetar a autoestima da criança, contribuindo para quadros de ansiedade e desmotivação.

Como os pais podem ajudar?

Identificar sinais de dificuldades de aprendizagem precocemente é essencial para que a criança receba o apoio adequado. Aqui estão algumas atitudes que os pais podem adotar:

  1. Observe o desempenho da criança em atividades cotidianas: Caso haja dificuldades frequentes em tarefas que são apropriadas para sua idade, é um sinal para investigar mais a fundo.
  2. Comunique-se com a escola: Os professores e coordenadores pedagógicos são essenciais na observação do progresso escolar e podem auxiliar na identificação precoce de dificuldades.
  3. Busque ajuda especializada: Psicopedagogos, psicólogos e neuropsicólogos são profissionais capacitados para avaliar e diagnosticar dificuldades e transtornos de aprendizagem, indicando as melhores estratégias de intervenção.
  4. Investigue a possibilidade de transtornos específicos: Se as dificuldades persistirem, pode ser necessário realizar testes especializados para identificar transtornos de aprendizagem, como dislexia ou discalculia.

O papel do psicopedagogo no tratamento

O psicopedagogo tem um papel crucial na avaliação e intervenção das dificuldades de aprendizagem. Ele atua como um mediador entre a criança, a família e a escola, realizando diagnósticos e propondo planos de intervenção que atendam às necessidades individuais da criança. Com um acompanhamento adequado, o psicopedagogo utiliza métodos personalizados para promover o desenvolvimento acadêmico e emocional da criança, garantindo que ela tenha o apoio necessário tanto na escola quanto em casa.

Como a nossa clínica pode ajudar?

Na Clínica Rezende, oferecemos acompanhamento especializado para identificar e tratar as dificuldades de aprendizagem de forma eficaz. Com uma abordagem integrada, focada em cada caso, garantimos que seu filho receba o suporte necessário para superar os desafios acadêmicos e se desenvolver de forma saudável e equilibrada.

Se o seu filho apresenta sinais de dificuldades de aprendizagem, não hesite em procurar orientação profissional. Nosso objetivo é trabalhar juntos, família, escola e clínica, para proporcionar à criança as melhores condições de aprendizagem e desenvolvimento.

Entre em contato conosco e agende uma avaliação!

Referências Bibliográficas

 AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Tradução de M. I. C. de Jesus et al. Porto Alegre: Artmed, 2014. (Trabalho original publicado em 2013).

BOSSA, Nádia. O psicopedagogo e o trabalho com as dificuldades de aprendizagem. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.

CAPOVILLA, F. C.; CAPOVILLA, A. G. S. Dislexia: Aspectos teóricos e terapêuticos. São Paulo: Artmed, 2010.

COLL, C.; PALACIOS, J.; MARCHESI, A. Desenvolvimento Psicológico e Educação: Necessidades Educativas Especiais e Aprendizagem Escolar. Porto Alegre: Artmed, 2004.

FONSECA, V. Dificuldades de Aprendizagem: Abordagem Neuropsicológica e Psicopedagógica. Porto Alegre: Artmed, 1995.

GEARY, D. C. Cognitive predictors of achievement growth in mathematics: A five-year longitudinal study. Developmental Psychology, v. 40, n. 4, p. 973–983, 2004.

GEARY, D. C. Mathematical Disabilities: A Cognitive Neuroscience Perspective. Educational Psychologist, v. 39, n. 1, p. 13-27, 2004.

PIAGET, J. A Epistemologia Genética. São Paulo: Abril Cultural, 1975.

SHAYWITZ, S. E. Overcoming Dyslexia: A New and Complete Science-Based Program for Reading Problems at Any Level. New York: Knopf, 2003.

VYGOTSKY, L. S. A Formação Social da Mente: O Desenvolvimento dos Processos Psicológicos Superiores. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

2024, o ano de fazer as pazes com a comida

Nutricionista dá dicas para manter uma relação saudável e prazerosa com a alimentação.

* Texto por Helen Lima, em entrevista ao Felipe Barreto, nutricionista.

Nutricionista dá dicas para manter uma relação saudável e prazerosa com a alimentação.

Entra ano, sai ano e as promessas se repetem: “agora eu vou emagrecer”, “não vou comer tantos doces”, “adeus, fast food”. Só que na prática, o que geralmente acontece é diferente. Tem início um ciclo marcado por muitas restrições e poucas alegrias, com grandes chances de erro. Daí surgem a culpa, a ansiedade, a vergonha…e a promessa de tentar mais uma vez em uma próxima temporada.

Se você se identificou com essa história, não se sinta só. Um estudo feito em 2023 pela YouGov, multinacional especializada em pesquisa de mercado, aponta que 48% dos brasileiros estão tentando perder peso. A busca por uma vida saudável e um corpo magro é comum a muitas pessoas, mas por que será que apenas uma pequena parcela consegue atingir os resultados? “Sei que pode parecer estranho, mas, fazer dietas, na grande maioria das vezes, acaba não funcionando no longo prazo”, afirma Felipe Barreto, Nutricionista da Clínica Rezende. Ele explica que a lógica tradicional da dieta, que consiste em permitir e proibir alimentos, atrapalha a relação do indivíduo com a comida, aumentando o medo e desejo pelos pratos “proibidos”, podendo levar a um consumo disfuncional. “Quem nunca ficou com muita vontade de comer um doce após receber a orientação de não poder consumir doces?” questiona.

Por isso, a primeira dica para quem quer estabelecer uma relação harmoniosa com a alimentação é deixar de lado as dietas restritivas, em que o objetivo é perder peso a qualquer custo. “A perda de peso inicial é esperada, mas o que acontece quando você não consegue continuar na dieta? A tendência é recuperar o peso perdido e, muitas vezes, até ganhar mais do que perdeu”.

Felipe Barreto destaca que parar de vilanizar certos alimentos é essencial para fazer as pazes com a comida. “A comida exerce um papel social, emocional e cultural, portanto, não podemos resumi-la a carboidratos e proteínas. Quando você vai visitar a sua avó e ela faz um bolo de chocolate para te receber, ela não está fazendo um ‘carbo’ e sim demonstrando o carinho que sente por você através da comida”.

Alcançando o equilíbrio na alimentação

Fazer as pazes com a comida não é tarefa fácil, mas o tratamento com um nutricionista é um excelente começo para transformar essa relação. De acordo com Felipe, o acompanhamento traz ferramentas para que o paciente desenvolva um olhar mais neutro para o alimento, fazendo com que ele saia do pedestal criado pela proibição e desejo.

As orientações de um profissional da área também ajudam as pessoas a identificarem os sinais de saciedade, compreendendo a hora certa de começar e parar de comer. Além de um olhar para dentro, Felipe Barreto reforça a importância de identificar no ambiente externo quais são os gatilhos que levam o indivíduo a comer de forma exagerada. “Alcançar o equilíbrio na alimentação é entender que todos os alimentos podem fazer parte da sua vida, cada um exercendo a sua função (nutrição, social, prazer, entre outras)”.

Em uma relação marcada pela mistura entre argumentos racionais e sentimentais, o suporte psicológico se apresenta como uma estratégia complementar ao trabalho desenvolvido pelo profissional de nutrição. “Enquanto o nutricionista trabalha com aconselhamento e orientações sobre escolhas alimentares, o psicólogo aborda os aspectos emocionais, mentais e comportamentais associados à alimentação. É um trabalho em equipe que funciona muito bem”.

Que tal fazer diferente neste ano novo? Contar com profissionais especializados para te ajudar nesse processo é um ótimo primeiro passo!

Leia também: O que é comportamento alimentar?

Quais são as consequências psicológicas do alcoolismo?

O consumo excessivo de bebidas alcoólicas pode alterar as funções cognitivas do usuário, comprometer relações sociais e afetar a saúde mental de seus familiares e amigos.

* Texto por Helen Lima, em entrevista à Amanda Oliveira, psicóloga.

Quais são as consequências psicológicas do alcoolismo?

O consumo excessivo de bebidas alcoólicas pode alterar as funções cognitivas do usuário, comprometer relações sociais e afetar a saúde mental de seus familiares e amigos.

Danos ao fígado, aumento do risco de cânceres e doenças cardiovasculares, perigo de lesões, episódios de violência e acidentes de trânsito. Esses são alguns dos problemas de saúde associados ao alcoolismo, condição em que a pessoa estabelece uma relação de dependência com a bebida alcoólica. Além dos danos à saúde física, o alcoolismo tem o potencial de comprometer a saúde mental do indivíduo, impactando diversas áreas da sua vida, desde a dinâmica familiar às atividades do trabalho. Segundo Amanda Oliveira, Psicóloga da Clínica Rezende, esses setores estão intimamente relacionados, gerando um efeito dominó que afeta todo o aspecto emocional do paciente. “No caso de dependência, o ato de beber se torna o afazer central na vida do indivíduo, logo, todos os comportamentos são direcionados para o consumo. Os gastos financeiros e os lugares de interesse giram em torno da substância, assim como a proximidade de pessoas que apresentam padrão semelhante de consumo”.

A especialista explica que o uso abusivo do álcool está associado a modificações cognitivas, como alteração da capacidade de memória, maior impulsividade e dificuldades de atenção e aprendizagem. Os vínculos sociais e ocupacionais do usuário também são fragilizados, podendo levar a conflitos familiares, falta de confiança entre amigos e dificuldade para se manter em um emprego. Esses efeitos contribuem para que a pessoa tenha uma visão negativa de si. “Percepções como ‘eu não consigo fazer nada útil’, ‘não tenho valor’ e ‘sou um zero à esquerda’ podem aparecer acompanhadas de emoções desconfortáveis, como vergonha, medo e tristeza, intensificando o isolamento social”, destaca.

Os efeitos emocionais não se restringem a quem sofre com a dependência

Além de evidenciar os prejuízos que o alcoolismo pode trazer à saúde mental dos usuários, a psicóloga reforça que o consumo de álcool é uma questão de saúde pública, trazendo consequências para toda a sociedade. Quem faz parte da rede de apoio de um indivíduo com dependência tem a possibilidade ainda maior de se expor a esses riscos. “Essas pessoas podem sentir e/ou observar negligências na manutenção da relação, o que pode impactar sua autopercepção, principalmente em casos em que o indivíduo com dependência é uma figura parental. Elas ainda têm o maior potencial de passar por vivências traumáticas e situações ansiogênicas, como antecipar problemas em festas de final de ano, por exemplo”.

Amanda Oliveira pontua que amigos e familiares também podem internalizar que são os responsáveis pela dependência do usuário, assumindo para si a capacidade de fazer o outro mudar de comportamento. “Isso é um prato cheio para frustração, sensação de incapacidade e culpa”, afirma. Compreender a nossa limitação diante das escolhas e atitudes do outro é uma das principais orientações que a profissional oferece às pessoas que integram as redes de apoio. Além disso, ela lista outras iniciativas para quem quer ajudar um ente querido, mas não sabe como:

  • Em primeiro lugar, cuide de si e da sua própria saúde;
  • Ofereça apoio e acolhimento ao usuário com uma escuta ativa e, se possível, sem julgamentos;
  • Evite confrontos diretos com a pessoa, principalmente em momentos de crise;
  • Incentive o tratamento com profissionais especializados.

Não existe consumo seguro de álcool

 Apesar de vivermos em uma sociedade que naturaliza e estimula o consumo de bebidas alcoólicas, a Organização Mundial da Saúde é categórica ao declarar que não existe limite seguro para o uso da substância. Essa ambivalência pode gerar certa confusão entre as pessoas em relação ao comportamento de consumo. A psicóloga destaca que devemos ficar atentos aos prejuízos que esse hábito pode gerar, como gastos indevidos, relações sexuais sem proteção, brigas, acidentes e lesões. Caso você tenha dificuldade em alterar seu padrão de consumo, perceba que está aumentando a quantidade, realize o consumo em situações inoportunas, beba por mais tempo que o planejado e/ou reduza atividades importantes em função do álcool, é recomendado que busque ajuda.

Leia também: Quando o consumo de álcool se torna dependência?

A luta contra a dependência de álcool é complexa, repleta de estigmas e preconceitos que podem prejudicar a autoestima e a recuperação dos pacientes. Amanda Oliveira levanta uma reflexão oportuna sobre o tema: “Por que bebemos e usamos drogas? Qual é a finalidade? Falamos sobre os impactos da dependência, mas, nessa via de mão dupla, a perda de um emprego, conflitos familiares e a sensação de solidão também podem estimular o uso”. Contar com acompanhamento psicológico é importante para lidar com emoções e eventos como esses, de forma que eles não se tornem a causa, nem a consequência, de problemas ainda mais graves.

Mês do Idoso: tire suas dúvidas sobre o Alzheimer

A doença de Alzheimer tem caráter progressivo, ou seja, as alterações de memória devem piorar de forma contínua ao longo do tempo. As queixas também devem trazer limitações funcionais para o paciente, como a dificuldade para ir à padaria comprar o café da manhã, sacar dinheiro no caixa eletrônico ou cuidar das tarefas domésticas, por exemplo.

* Texto por Helen Lima, em entrevista ao Dr. Danilo Jorge da Silva, neurologista.

Mês do Idoso: tire suas dúvidas sobre o Alzheimer

Em outubro é comemorado o Dia Nacional do Idoso (01/10), data em que as autoridades políticas, entidades sociais e instituições de saúde chamam a atenção para estratégias em prol do envelhecimento saudável. O número de pessoas acima dos 60 anos está crescendo no Brasil e, segundo projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nosso país terá mais idosos do que jovens em 2060. A terceira idade é a fase em que as pessoas celebram a experiência de vida e o descanso depois de longos anos dedicados ao trabalho, mas também é marcada pelo alto risco de problemas de saúde e comprometimento das atividades cotidianas. O Alzheimer, por exemplo, é a forma mais comum de demência que se conhece, levando a um processo neurodegenerativo que não tem cura e ocasiona limitações funcionais nos pacientes, principalmente após os 65 anos.

Conversamos com o Dr. Danilo Jorge da Silva, Neurologista da Clínica Rezende, para tirar as principais dúvidas sobre a doença e destacar a importância do diagnóstico precoce na qualidade de vida das pessoas que vivem com essa enfermidade. Confira a seguir:

Atenção aos sinais de alerta

O Dr. Danilo explica que todos os indivíduos, independente da idade, estão sujeitos a eventos que causam o comprometimento da memória, como a má qualidade do sono, hábitos de vida inadequados e episódios depressivos. O que diferencia esses casos da demência, como o Alzheimer, são critérios que devem ser avaliados cautelosamente por um profissional especializado.

“A doença de Alzheimer tem caráter progressivo, ou seja, as alterações de memória devem piorar de forma contínua ao longo do tempo. As queixas também devem trazer limitações funcionais para o paciente, como a dificuldade para ir à padaria comprar o café da manhã, sacar dinheiro no caixa eletrônico ou cuidar das tarefas domésticas, por exemplo. Além disso, nós não podemos falar em Alzheimer quando o comprometimento ocorre em apenas uma modalidade cognitiva, como o recordatório de nomes, fatos e eventos”, destaca. Vale ressaltar que essa enfermidade também impacta a linguagem e percepção de mundo, provocando mudanças no comportamento, humor e personalidade dos pacientes.

O especialista também chama atenção para uma particularidade na herança genética da doença, o que chama de “uma exceção incomum”: “o fato de se ter um familiar com Alzheimer, via de regra, não aumenta seu risco de manifestá-la”.

Prevenção e diagnóstico precoce

Atualmente, não há nenhum tipo de tratamento capaz de prevenir ou retardar o processo neurodegenerativo do Alzheimer, mas existem estratégias para estimular o desenvolvimento cerebral que podem ajudar a abrandar os sintomas da doença, caso ela se manifeste. “Atividades como caça-palavras, palavras cruzadas, leitura e trabalhos manuais como crochê e tricô são considerados saudáveis para o cérebro e auxiliam na manutenção de uma boa reserva cognitiva”, recomenda o Neurologista.

O Dr. Danilo também reforça o valor da detecção precoce da doença, mesmo que ainda não seja possível curá-la. “O diagnóstico precoce é importante para que se tomem medidas que impeçam que causas concorrentes (doenças evitáveis, hábitos e rotinas inadequados) possam piorar os sintomas cognitivos. Além disso, há tratamentos que visam melhorar essas manifestações e garantir uma melhor qualidade de vida ao paciente”.

Esperança para o futuro

Cerca de 100 mil novos casos da Doença de Alzheimer são diagnosticados por ano no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. Em todo o mundo, o número chega a 50 milhões de pessoas e, de acordo com estimativas da Alzheimer’s Disease International, essa marca poderá ultrapassar os 130 milhões em 2050, devido ao envelhecimento da população. As estatísticas alarmantes caracterizam, nas palavras do ministério, “uma crise global de saúde que deve ser enfrentada”.

A ciência vem se empenhando na busca por tratamentos mais eficientes para a doença. O Dr. Danilo Jorge da Silva afirma que estamos vivendo uma “era dourada” para a pesquisa relacionada a enfermidades antes tidas como intratáveis ou incuráveis. “Terapias genéticas e imunobiológicas de ponta estão se tornando uma realidade cada vez mais acessível e próxima da população em geral”; e finaliza com uma mensagem otimista: “a perspectiva de novos tratamentos para o Alzheimer é bastante sólida a médio prazo”.

O medo de ter medo

Na tentativa de encontrar o alívio as pessoas se engajam em situações que as anestesiam daquele desconforto

* Por Laís Helena Pereira

O medo de ter medo

Não é incomum receber pacientes no consultório que relatam uma necessidade absurda de alívio para aquilo que é desconfortável, seja um sentimento, um pensamento ou uma sensação física. Nessa tentativa de encontrar o alívio as pessoas se engajam em situações que as anestesiam daquele desconforto, que os afastam, que os distraiam e até mesmo buscam se ocupar, em demasia, para não entrar em contato com o que incomoda. Associado a essa situação também é muito comum que essas pessoas tenham a crença de que pensar sobre o assunto e entrar em contato com o desconforto vai intensificar o que já está ruim.

É possível compreender de onde vem esse funcionamento… a seleção natural nos fez atentos aquilo que é nocivo, que coloca em risco nossa segurança e sobrevivência. Por exemplo, quando uma comida cheira mal, não comemos, pois aquele cheiro indica que ela está estragada; quando um bicho venenoso se aproxima, nos distanciamos dele para nos proteger. Entretanto, generalizar essa postura para conteúdos internos não alcança o mesmo resultado, de proteção e sobrevivência, aliás, tentativas de evitar pensamentos e emoções desagradáveis podem às vezes nos fazer vivenciá-los mais frequente ou intensamente.

Quando nos apoiamos na realidade, somos forçados a admitir que a vida envolve certo grau de sofrimento e dor. Portanto, a postura de evitar e ignorar o desconforto acaba nos conduzindo a uma vida com pouco significado e propósito. Dessa forma, é preciso trabalhar para adotar uma postura de abertura e aceitação daquilo que é desafiador.

Essa pauta é muito comum nas sessões de terapia e por isso pedi a uma paciente querida para relatar sua experiência, veja só como foi o processo dela.

“No auge dos meus 18 anos, minha vontade era poder apertar o botão “acelerar, do controle remoto da vida”, para poder chegar aos 60 anos, ser uma senhorinha que acorda cedo e que apenas se preocupa em lavar sua calçada pela manhã. Pois só assim não me preocuparia com nada, não precisaria enfrentar tudo aquilo que me causava desconforto: a rotina do dia a dia, o trabalho, os problemas… tudo já teria passado.

Alguns dias em que tudo era planejado nos mínimos detalhes davam certo, mas outros, em que algo acontecia, uma briga com o namorado, uma prova que estava chegando, um processo seletivo, ou simplesmente nada, já era o suficiente para a angústia, o medo e “ELA”, a ansiedade, chegarem. E com “ELA” um turbilhão de pensamentos ruins, desastrosos e emoções negativas!

“_ Será que quando eu for apresentar aquele trabalho na faculdade, vou ficar tão nervosa que vai me dar branco, ou pior, vou vomitar no meio da sala?”

“_ E se eu terminar meu namoro e nunca mais encontrar ninguém? Vou ficar sozinha, quero casar e ter filhos antes dos 30. Meu Deus, o tempo está passando!”

“_ Será que no dia do meu casamento vou ficar tão nervosa que todos vão ver que estou tremendo? Todos ficam felizes no dia do casamento, ninguém fica com cara de angustiado!”

“_E se eu não passar no vestibular? Minha vida vai ter acabado. Vou ficar atrasada para sempre!”

Pronto, o looping infinito de pensamento – sentimento ruim começou, a ansiedade – carinhosamente a chamo de “E SE? e “SERÁ?”- tomou conta de mais um dia e mais um e mais um….. porque todos os dias acontecem novas coisas, novas situações, novos desafios, novas alegrias, novos problemas…

A “E SE?” e “SERÁ?” é tão convincente e envolvente que consegue até transformar coisas boas, como um novo emprego, um novo relacionamento, uma festa…. em algo ruim. E ter emoções ruins é horrível, causa medo, é assustador e por isso muitas vezes eu tentava ignorar tudo, tentava não pensar pois tinha medo de me sentir pior se eu desse “ouvidos” para esses pensamentos e emoções.

“_Você já teve medo de sentir medo?”

Parece algo bem estranho, mas eu já, várias vezes. Tive medo de chegar em alguma situação em que precisasse fazer algo, ou resolver algo e por medo, não conseguisse fazer. Esse é o medo de ter medo :

– “E se eu estiver me divertido com minhas amigas, e do nada, vier aquele pensamento ruim e começar a me dar medo? Vai estragar meu passeio, vou ficar nervosa e passar mal. Agora estou com medo disso acontecer.”

_ Essa noite precisarei dormir sozinha. Como vou fazer? Não quero dormir sozinha, porque posso acordar no meio da noite e ouvir um estalo da geladeira e ficar com medo.”

Diante desse medo muitas vezes deixei de fazer coisas, de estar com as amigas e até perdi o sono, com medo do medo.

Muitos anos se passaram em minha vida e eu não sabia administrar ou mesmo entender todas essas emoções, em especial a ansiedade, o medo e a angústia, nem ao menos denominá-las. Elas aconteciam e a vida ia passando… vai ver tinha que ser assim, cada um tem seu jeito e esse é o meu. E sempre pensava, não vou ter paz nunca?!

Até o momento em que comecei a fazer terapia. E como pode isso, uma cortina se abriu. Comecei a entender os “porquês” dessas emoções, sentimentos e pensamentos. E as coisas começaram a fazer sentido, parecendo até serem óbvias. Foi aí que descobri que o pensamento ansioso começa sempre com a pergunta “E SE? e SERÁ?”.

Um dos exercícios que minha psicóloga me ensinou, que mais me ajudou foi buscar o pensamento “fonte”. E é algo surpreendentemente simples, mas a “E SE?  e SERÁ?” deixa nossa cabeça tão confusa, que causa um nó e então você só está com aquele aperto no coração e a cabeça doendo de tanto pensar e já nem sabe mais o porquê daquilo tudo.

Bem, o pensamento fonte é assim: algo aconteceu (pode ser bom ou ruim), mas disparou sua ansiedade e com ela a palpitação no coração. Estou no meio da tarde, paralisada, sentindo meu coração disparado e um mal estar terrível.

“-PARA TUDO!!!!”

– Em que estou pensando? Ex. Vai dar tudo errado com a minha mudança de casa, chegará tudo quebrado e destruído.

– Qual pensamento fonte, o que me fez pensar/constatar isso? Já fiz uma mudança uma vez que deu errado. Também ouvi e li na internet, o relato de várias pessoas dizendo que suas coisas chegaram quebradas ou simplesmente não chegaram!

Ok! Já consegui identificar o que está causando essa palpitação, o medo da mudança dar errado, pois penso que há grandes chances disso acontecer.

Bem, agora o mais importante, o que posso fazer a respeito? Esse pensamento tem fundamento?

“_ A resposta é sim!  Meu pensamento tem fundamento, quero que dê tudo certo com a minha mudança. Diante disso posso fazer algumas coisas mas não controlar tudo. Posso procurar a melhor transportadora, ver recomendações na internet, conversar com pessoas que também se mudaram e tentar escolher a melhor empresa, embrulhar tudo bem direitinho e… bem… paro por ai. Após isso, não está mais em minhas mãos, o que vai acontecer dentro do caminhão de transporte não depende mais de mim. Não posso controlar tudo, não há como controlar tudo! E ISSO É NORMAL!”

Isso é libertador! Entender qual emoção está sentindo, de onde ela veio, o porquê e o que posso fazer com isso, é algo sensacional. Pois como disse, sempre me perguntei, quando terei PAZ, porque todos os dias acontece alguma coisa. E hoje descobri a resposta:

A PAZ está na forma como encaro minhas emoções e tudo que acontece ao meu redor. Porque coisas ruins e coisas boas, SEMPRE vão acontecer e sempre vão gerar emoções em mim e em qualquer pessoa. Mas a forma como às encaro, é o que me faz viver de uma forma leve. Entendi que as mesmas emoções que me causavam desconforto, são as que me impulsionam a viver, me desafiam e não me assustam mais. Elas fazem parte de mim e hoje sei o que fazer com elas.

Me faz viver o dia a dia entendendo o que estou sentindo, pensando… queria ter descoberto isso aos meus 18 anos, mas só descobri aos 30 após iniciar a terapia. Mas a vida é isso, um eterno aprendizado, a gente paga pra ver se dará certo, aposta no imprevisível, tenta controlar o incontrolável, ri, chora, comemora, sente medo, dor, angústia… isso é viver.

Ainda aprendo muito em cada sessão de terapia, me descubro, entendo os porquês, crio novos porquês também. E hoje, quero viver cada dia, nada de sair acelerando o “controle remoto da vida”, ainda chegarei aos 60, 70, 90 anos… não sei bem o que farei quando chegar lá, mas com certeza minha preocupação não será em lavar calçada, nem sei se terei preocupação, mas sei que com certeza já terei aprendido muito e vivido muito a cada dia, compreendendo e encarando minhas emoções.”

Percebam como a abertura ao desconforto abre espaço para o entendimento, para o significado daquela emoção e daquele pensamento para a sua vida e como isso contribui para uma vida que vale a pena, mesmo com a presença do sofrimento.

REFERÊNCIA:

LEAHY R. L., TIRCH D. & NAPOLITANO L. A. (2013). Regulação emocional em psicoterapia – um guia para o terapeuta cognitivo-comportamental. Porto Alegre: Artmed.