Crianças desatentas e com dificuldade na escola? Entenda o impacto silencioso das telas na aprendizagem

Nem sempre se trata de um transtorno, muitas vezes, as dificuldades estão relacionadas ao contexto ambiental, à rotina da criança e a fatores pedagógicos.

* Por Dilaine Lopes, psicopedagoga clínica e institucional

Crianças desatentas e com dificuldade na escola? Entenda o impacto silencioso das telas na aprendizagem

Nem sempre se trata de um transtorno, muitas vezes, as dificuldades estão relacionadas ao contexto ambiental, à rotina da criança e a fatores pedagógicos.

No contexto da clínica psicopedagógica, têm sido cada vez mais frequentes as queixas relacionadas à desatenção, dispersão e dificuldade na retenção de conteúdos escolares. Tais manifestações, frequentemente, suscitam a hipótese de transtornos do neurodesenvolvimento. No entanto, uma análise criteriosa evidencia que, em muitos casos, essas dificuldades podem estar relacionadas a fatores do contexto ambiental e à organização da rotina da criança.

A avaliação psicopedagógica, nesse cenário, assume um papel fundamental, pois não se restringe à identificação de possíveis indicativos clínicos, mas busca compreender o modo singular de aprender do sujeito, considerando a integração entre aspectos cognitivos, emocionais e contextuais. Conforme destaca Nádia Bossa, trata-se de um processo investigativo amplo, voltado à identificação de potencialidades e dificuldades, com vistas à construção de intervenções mais assertivas.

A partir dessa perspectiva, apresenta-se uma situação vivenciada em consultório, na qual a criança (aprendente) foi encaminhada com queixa principal de dificuldade de concentração, dispersão frequente e baixa retenção de informações. Observou-se, ainda, comprometimento na atenção sustentada, associado a desinteresse pelas atividades escolares e desmotivação para frequentar a escola. Segundo relato materno, a criança demonstrava preferência significativa por permanecer em casa utilizando o celular, em detrimento das demandas acadêmicas e da vivência escolar.

Durante o processo avaliativo, foram observadas dificuldades no desempenho de funções executivas, especialmente na memória de trabalho e no controle inibitório. Tais manifestações evidenciaram-se por meio de agitação motora, dificuldade em manter-se em uma mesma atividade por períodos mais prolongados, elevada suscetibilidade a estímulos distratores e limitação na retenção de informações recém-apresentadas, evidenciada pela dificuldade em manter conteúdos logo após a explicação da professora.

No levantamento de dados realizado por meio da anamnese, identificou-se um padrão de uso intenso de dispositivos eletrônicos, especialmente no período noturno, com exposição prolongada a conteúdos digitais de alta estimulação e rápida alternância. Tal padrão mostrou-se associado à desorganização da rotina de sono, resultando em cansaço, sonolência diurna e redução do engajamento nas atividades escolares. Considerando a análise do contexto e o respaldo da literatura, esse fator foi compreendido como uma variável relevante na dinâmica das dificuldades apresentadas.

A literatura científica tem apontado que a exposição excessiva a estímulos digitais, especialmente quando associada à ausência de mediação adequada e à desorganização da rotina, pode estar relacionada a dificuldades no desenvolvimento e no desempenho das funções executivas, conjunto de habilidades cognitivas responsáveis pelo controle da atenção, autorregulação e organização do comportamento. De acordo com Adele Diamond, funções como memória de trabalho, controle inibitório e atenção são essenciais para o desempenho acadêmico. De modo complementar, Russell A. Barkley destaca que dificuldades nessas funções podem impactar a capacidade de manter o foco, seguir instruções e organizar ações no contexto escolar.

Além disso, o uso de telas, especialmente no período noturno, pode comprometer a qualidade do sono, aspecto fundamental para os processos de consolidação da memória e da aprendizagem, conforme apontam diretrizes de organismos internacionais de saúde, como a Organização Mundial da Saúde, bem como recomendações de entidades pediátricas, como a American Academy of Pediatrics

Diante desse contexto, foi iniciado o acompanhamento psicopedagógico, envolvendo a reorganização da rotina da criança, orientação familiar quanto ao estabelecimento de limites no uso de dispositivos eletrônicos e intervenções específicas voltadas ao fortalecimento das funções executivas, especialmente atenção sustentada, memória de trabalho e controle inibitório. Ressalta-se a importância de uma atuação interdisciplinar, quando necessária, considerando a complexidade dos fatores envolvidos no processo de aprendizagem.

Destaca-se que as observações apresentadas referem-se ao contexto da avaliação psicopedagógica, não configurando, isoladamente, definição diagnóstica, mas contribuindo para a compreensão funcional das dificuldades no processo de aprendizagem.

Esse caso reforça a importância de um olhar técnico, sensível e ampliado sobre as dificuldades escolares. Nem sempre estamos diante de um transtorno; muitas vezes, aspectos do cotidiano, especialmente relacionados ao contexto ambiental, à rotina e ao uso excessivo de telas, exercem impacto significativo no desenvolvimento cognitivo e emocional da criança.

Minha atuação clínica fundamenta-se em uma avaliação psicopedagógica criteriosa, detalhada e embasada em referenciais teóricos consolidados, incluindo a utilização de protocolos desenvolvidos por Nádia Bossa, uma das principais referências da psicopedagogia no Brasil. Isso possibilita a compreensão aprofundada do perfil de aprendizagem e a construção de intervenções individualizadas e eficazes.

Se você tem observado em seu filho dificuldades de atenção, esquecimento frequente, desmotivação escolar ou resistência em frequentar a escola, é fundamental investigar de forma adequada. A avaliação psicopedagógica pode ser um importante passo para compreender essas dificuldades e direcionar intervenções assertivas e responsáveis.

Agende uma avaliação e compreenda, de forma técnica e cuidadosa, como apoiar o desenvolvimento da aprendizagem.

Referências


BARKLEY, Russell A. Executive functions: what they are, how they work, and why they evolved. New York: Guilford Press, 2012.

BOSSA, Nádia A. A psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.

DIAMOND, Adele. Executive functions. Annual Review of Psychology, Palo Alto, v. 64, p. 135–168, 2013.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. Geneva: WHO, 2019.

AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Media and young minds. Pediatrics, Elk Grove Village, v. 138, n. 5, e20162591, 2016.

Por que é importante o acompanhamento psicopedagógico clínico?

A Psicopedagogia é considerada uma ciência, estratégia, área e/ou prática destinada a entender, prevenir e tratar problemas de aprendizagem.

* Por Dilaine Lopes, Psicopedagoga Clínica.

Por que é importante o acompanhamento psicopedagógico clínico?

Antes de compreendermos sobre a importância da Psicopedagogia Clínica, vou explicar um pouco sobre o que é a Psicopedagogia e como funciona. Vamos lá?

O que é Psicopedagogia?

A Psicopedagogia é considerada uma ciência, estratégia, área e/ou prática destinada a entender, prevenir e tratar problemas de aprendizagem.  Em seu surgimento tinha um papel principalmente preventivo, pois procurava corrigir os “erros” relacionados à aprendizagem e muitas vezes, até hoje, é confundida com “reforço escolar”. Na abordagem mais atualizada, consideramos o olhar da pessoa, o modo como ela aprende, constrói e lida com o conhecimento. Considerando que a aprendizagem é multifacetada, a atuação da psicopedagogia envolve uma abordagem transdisciplinar que tem procedimentos próprios e que considera a influência da família, da escola e da sociedade.

Então, como funciona a Psicopedagogia Clínica?

A Psicopedagogia Clínica explora, junto com a pessoa, as dificuldades da aprendizagem que apresenta, seja criança, adolescente, adulto ou idoso, considerando os aspectos emocionais, cognitivos e pedagógicos. Ainda promove o crescimento intelectual do sujeito, potencializa as habilidades e competências em seu desenvolvimento cognitivo.

O trabalho é iniciado com uma avaliação diagnóstica em que são analisadas as queixas e sinais que a pessoa apresenta no contexto escolar, familiar e social. Em suas múltiplas dimensões, são consideradas as dificuldades de aprendizagem e, a partir dessa avaliação, o psicopedagogo elabora estratégias de intervenção personalizadas, cujo objetivo é promover a superação das dificuldades e intensificar suas habilidades cognitivas.

Quando devo procurar acompanhamento do psicopedagogo clínico?

Com o cenário pandêmico, as constantes mudanças na maneira de ensinar e mediar a aprendizagem contribuíram para o surgimento significativo de dificuldades na aquisição de conhecimento. Desde a utilização e inclusão de ferramentas tecnológicas nesse processo, até alterações cognitivas e emocionais devido ao isolamento ou mesmo o acesso a um volume enorme de informações, nos expõe a estímulos que influenciam nossa aprendizagem. Nesse contexto, não poderíamos deixar de considerar o excesso de uso de redes sociais que nos predispõe a consumir conhecimento de uma maneira particular, em que as informações são fornecidas de maneira rápida e superficial.

Isto levou ao aumento de demanda nos consultórios clínicos em busca por atendimento psicopedagógico. Hoje, atendemos dificuldades apresentadas por crianças, adolescentes, adultos e idosos com queixa que denominamos transtornos funcionais (Dislexia, TDAH, Disgrafia, Discalculia, Disortografia, etc.), repetência escolar, desorganização e dificuldade em estabelecer disciplina, queda no desempenho escolar, falta de atenção, problemas com concentração e memória, dificuldades na leitura e escrita, desmotivação e falta de interesse generalizado em conhecer e aprender, dentre outros.

Por isso, a família, a escola e o entorno social são fundamentais para identificar sinais que interferem no processo de aprendizagem e o psicopedagogo é o profissional que pode ajudar para a superação dessa dificuldade.

Quais os procedimentos do psicopedagogo na clínica?

O psicopedagogo elabora atividades conforme as necessidades do aprendente por meio de uma intervenção individual e personalizada, sendo planejada de acordo com o diagnóstico de avaliação.

Atividades desenvolvidas pelo Psicopedagogo Clínico:

Avaliação psicopedagógica

É uma avaliação minuciosa que acontece durante algumas sessões e observa o desenvolvimento cognitivo, motor, raciocínio lógico-matemático, emocionais, dentre outros. Importante enfatizar que o diagnóstico é construído por abordagem multidisciplinar, como é realizado aqui na Clínica Rezende, em que uma equipe de profissionais (psicólogo, fonoaudiólogo, neuropediatra, neurologista), identificam os possíveis déficits cognitivos, emocionais, sensoriais ou de transtornos na aprendizagem que interferem no desempenho do aprendente.

Intervenção psicopedagógica

Após o mapeamento da avaliação, o psicopedagogo cria uma estratégia de plano de intervenção psicopedagógica cujo objetivo é promover a superação das dificuldades e/ou possíveis transtornos na aprendizagem.

Para a intervenção com a criança, o profissional utiliza ferramentas lúdicas com diferentes recursos (como jogos, atividades motoras e brincadeiras) para gerar o progressivo desenvolvimento de aprendizagem, recursos pessoais e ferramentas de habilidade cognitiva (melhor capacidade de atenção, concentração, expressão verbal oral e escrita, bem como atende seu desempenho nos conteúdos escolares).

Nesta fase é fundamental a atuação da família para a conquista e desenvolvimento do indivíduo, além da continuidade do trabalho psicopedagógico, cria um ambiente de afeto e interesse que garantem o resultado desejado.

Com jovens, adultos e idosos, explora-se as potencialidades, a maneira como lida e constrói o conhecimento. Para a intervenção, são utilizados recursos técnicos e instrumentos especialmente elaborados para a dificuldade relacionada à aprendizagem e desempenho cognitivo que a pessoa apresenta.

Talvez a resposta para o título desse texto vamos descobrir juntos, na medida em que trabalharmos em parceria!

Nesse primeiro momento procurei apresentar de maneira simples como desenvolvo meu trabalho e aguardo vocês para dúvidas, esclarecimentos e me coloco à disposição para atendê-los ou as pessoas que mais amam, para um trabalho afetivo, de respeito à subjetividade e tecnicamente orientado no contexto da aprendizagem.

Até mais!

Referências Bibliográficas

BARBOSA, Laura M.S. (org.). Intervenção psicopedagógica no espaço da clínica. Curitiba: Ibpex, 2010.

BOSSA, Nadia A. A psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.  Acessado em 13/01/2024 disponível no link https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/7962463/mod_resource/content/1/Psicopedagogia.pdf

FONTES, M. A. Concepções de psicopedagogia no Brasil: reflexões a partir da teoria crítica da sociedade / Marisa Aguetoni Fontes. – São Paulo: s.n., 2005. Acessado em 13/01/2024 disponível no link.https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-05072012-091406/publico/fontes_me.pdf

SCOZ, Beatriz J.L. (org.) Psicopedagogia: o caráter interdisciplinar na formação e atuação profissional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.

VISCA, Jorge. Clínica psicopedagógica: epistemologia convergente. São José dos Campos: Pulso Editorial, 2010.