Luto não é “Game Over”: O guia para acolher crianças na hora da perda.

Perder alguém que amamos é como se o mundo, de repente, sofresse um “glitch” bizarro. Para os adultos, o chão foge, mas para uma criança a visão é diferente.

* Texto por Pedro Martins, em entrevista à Lesiane Almeida, psicóloga infantil.

Perder alguém que amamos é como se o mundo, de repente, sofresse um “glitch” bizarro. Para os adultos, o chão foge, mas para uma criança a visão é diferente. A ideia é como se as regras do jogo mudassem sem aviso prévio, gerando um impacto emocional intenso e desorganizador.

Mas como falar sobre isso sem transformar a conversa em um bicho de sete cabeças? Vamos conversar sobre como acolher os pequenos nesse momento.

Como lidar com a perda repentina?

Sabe quando o Homem-Aranha perde o Tio Ben ou a Tia May? É um choque que muda tudo. Segundo a Neuropsicóloga Lesiane Almeida, quando uma perda acontece de forma inesperada, como em um acidente, a criança perde o que ela tem de mais precioso, a sensação de que o mundo é um lugar previsível e seguro. “Nesse contexto, ocorre uma ruptura na percepção de segurança e previsibilidade do mundo, o que pode gerar angústia, tristeza profunda e insegurança.”, comenta a profissional.

Diferente de nós, elas não tiveram tempo para se preparar emocionalmente. Isso gera um estado de confusão, medo e até desamparo, porque a rotina de proteção foi quebrada abruptamente.

Fases do luto

Para entender o luto, pense na série WandaVision (2021), da Marvel. A protagonista, Wanda ou Feiticeira Escarlate, passa por todas as fases durante a narrativa do programa: negação (criando uma realidade perfeita para ela), raiva, negociação, depressão e, finalmente, aceitação. No luto infantil, essas fases também aparecem, mas nem sempre em ordem. Estudiosos da área, como a doutora em Psicologia Clínica, Maria Helena Pereira Franco, nos lembra que o luto não é uma linha reta que termina com o “esquecimento”, mas um processo de reconstruir significados. Não se trata de “superar”, mas de aprender a viver com uma nova configuração de vida.

E é importante entender que uma criança não é um “mini-adulto”, sua compreensão sobre o fim da vida muda conforme ela cresce. As menores podem achar que a morte é algo reversível ou temporário. Já crianças maiores começam a entender que a morte é universal e irreversível. Por isso, Lesiane aponta que a comunicação precisa ser ajustada ao nível de desenvolvimento de cada uma. E um ponto fundamental é prestar atenção em como a criança está se comunicando.

Sinais de alerta sobre o comportamento infantil

Assim como nos adultos, a comunicação corporal é fundamental para entender esse momento, mesmo que a criança não fale o que está sentindo verbalmente. “Alterações no sono e apetite, irritabilidade, isolamento, dificuldades escolares, regressões e aumento da dependência são sinais comuns. O brincar também pode revelar o processo de luto, com repetição de temas relacionados à perda.” – aponta Lesiane Almeida.

A Estratégia dos Ibejis

No culto Yorubá, existe uma história muito antiga (um itã) que ilustra bem esse poder do brincar. Dizem que os Ibejis, os Orixás gêmeos divinos, venceram a Iku, a Morte, não com força, mas com música e ritmo. No itã, as divindades crianças eram muito travessas, mas salvaram sua comunidade ao tocarem seus tambores sem parar para distrair a morte que passava pela região. Enquanto um descansava, o outro tocava. A Morte, tentando acompanhar aquela dança infinita, acabou exausta e desistiu, prometendo deixar as crianças em paz.

Essa história nos ensina que a alegria e a ludicidade da criança não são um sinal de que ela “não se importa”, mas sim a forma como ela reafirma a vida e enfrenta o medo. O brincar é o tambor da criança batendo contra o silêncio da perda.

E qual o melhor jeito de dialogar?

A Neuropsicóloga Lesiane Almeida afirma que a verdade é o melhor caminho. O “pensamento mágico” pode fazer a criança achar que é culpada pelo ocorrido “eu briguei com ele e por isso ele se foi”. Frases como “ele foi viajar” ou “virou estrelinha” devem ser evitadas, pois podem causar uma confusão enorme e medo de que outras pessoas que viajam nunca mais voltem. Estabelecer uma linguagem clara, honesta e concreta, validar o que ela sente, como frases como “Tudo bem estar triste, eu também estou com saudade” pode ajudar a criança a entender melhor sobre o momento que está vivendo.

Quando pedir ajuda?

O luto é uma reação esperada, mas se o sofrimento for persistente e impedir a criança de brincar, estudar ou interagir por muito tempo, é hora de procurar ajuda profissional, com locais preparados para auxiliar nesses momentos tão difíceis, como a Clínica Rezende, por exemplo. Sinais como isolamento prolongado, comportamentos auto lesivos ou prejuízo funcional importante são alertas de que a elaboração está difícil demais para enfrentar sem um psicólogo ou neuropsicólogo.

O vínculo que permanece

Lesiane Almeida afirma que “a rede de apoio — família, escola e pessoas próximas — desempenha um papel fundamental nesse processo. Manter uma rotina estruturada contribui para a sensação de segurança. A escola deve estar informada para compreender possíveis mudanças no comportamento e desempenho da criança. O alinhamento entre os adultos envolvidos é essencial para garantir um ambiente acolhedor e consistente.”

No fim, o importante é manter o cuidado e acolher, para que as crianças cresçam com traumas em decorrência. O luto infantil exige paciência e, acima de tudo, presença disponível.

Descubra seu Estilo Parental

Faça o teste e identifique seus comportamentos e atitudes como cuidador.

* Por Laís Verçoza

Sabe-se que é através da família que são proporcionadas as primeiras possibilidades de interação da criança, e os pais e cuidadores desempenham um papel fundamental no comportamento e desenvolvimento dos filhos.

Nesse processo de socialização os pais utilizam diversas estratégias e técnicas que orientam seus comportamentos com os filhos, chamadas de práticas parentais, que podem ser divididas entre práticas indutivas e coercitivas. As práticas indutivas favorecem o desenvolvimento da autonomia no indivíduo, sinalizando as consequências dos comportamentos e levando a criança à reflexão e internalização dos valores familiares e o desenvolvimento da empatia. Já as práticas coercitivas são atitudes disciplinares que envolvem uso da força, punição física, privações e ameaças, na qual o diálogo e reflexão das atitudes não se fazem presentes.

Dentro das práticas parentais encontram-se os estilos parentais, que são definidos como atitudes direcionadas às crianças que criam um clima emocional entre pais e filhos e possuem três dimensões:

Responsividade – caracterizada por atitudes compreensivas dos pais e pelo apoio emocional que favorecem a autonomia e autoafirmação.

Exigência – são todas as atitudes dos pais que buscam controlar o comportamento dos filhos com limites e regras.

Afeto – Formas de expressar amor através de gestos, atitudes e palavras.

Esses três aspectos – exigência, a responsividade e o afeto – na devida proporção e combinação, formam os estilos parentais.

A qualidade dos cuidados parentais tem sido apontada como a variável mais importante para um  desenvolvimento infantil saudável e positivo.

Qual é o seu estilo enquanto cuidador? Esse questionamento nos convida a pensar quem estamos sendo nos cuidados com nossos filhos e o que estamos querendo transmitir em termos de valores para aquele que cuidamos. Vamos conhecer um pouco dos 4 estilos parentais?

 

Estilo Permisso por Escolha (indulgente):

São pais com responsividade e afeto, mas pouco exigentes. Não conseguem estabelecer limites realistas para os filhos e nem conversar e orientar sobre as consequências de seus comportamentos. Para evitar discussões, acabam cedendo o que o filho quer. É o filho quem manda na casa e faz tudo o que quer. O cuidador sente-se impotente e ineficaz e a criança não estabelece limites adequados para se relacionar com o mundo,  tornando-se intolerante à frustração, não suportando quando seus desejos/impulsos não são atendidos.

 

Estilo Permisso por Falha (negligente):

Cuidadores não são exigentes nem afetivos. Envolvem-se pouco na vida dos filhos e não os monitoram. Não há regras, limites e conversas entre pais e filhos. Os beijos, abraços e tempo de qualidade com as crianças são raros. São pais ocupados que não tem tempo para o filho e conhecem pouco sobre seus gostos e vontades. O cuidador responde apenas às necessidades básicas da criança. Como consequências  os filhos não se sentem amados e nem compreendidos. Podem apresentar fraco desempenho escolar, depressão, estresse, pessimismo, baixa autoestima, comportamentos antissociais e dificuldade com limites e regras.

 

Estilo autoritário:

Regras e limites muito rígidos e inflexíveis. São cuidadores bastante punitivos e pouco afetivos e responsivos. Não escutam opinião dos filhos e eles não participam de decisões e escolhas. São impositivos sem prestar atenção nas emoções e nos desejos das crianças. Pouco afetivos e participativos. Filho obedece por medo e não por entender as consequências e podem apresentar habilidades sociais pobres, submissão exagerada, baixa autoestima, depressão, ansiedade e estresse elevado.

 

Estilo Autoritativo/Assertivo/Participativo:

Combina afeto, responsividade e exigência. Colocam regras e limites, mas com equilíbrio e com a participação do filho. Incentivam o diálogo. Consideram os sentimentos e opiniões da criança, fazendo-o participar de decisões e escolhas. Tem tempo de qualidade com a família e as demonstrações de carinho e afeto são frequentes. As consequências para os filhos são autoestima elevada, desenvolvimento da tolerância à frustração, das habilidades sociais, otimismo, menores níveis de depressão e estresse. São crianças que sentem-se pertencentes a família, amadas e compreendidas pelos pais, conseguindo lidar de forma mais assertiva e resiliente  nas adversidades da vida.

 

Toda criança está em constante desenvolvimento e neste percurso se espelham nos pais, imitando comportamentos e seguindo suas orientações. Assim, o modo como o relacionamento entre pais filhos irá se estabelecer influenciará de forma diferente o desenvolvimento de cada criança. Descobrir quais práticas você utiliza com mais frequência na educação possibilita um melhor entendimento das reações do seu filho e oportuniza mudanças necessárias de conduta. Importante que os pais busquem adquirir novos conhecimentos, rever algumas atitudes, levantar reflexões e encontrar a melhor maneira de lidar com os filhos e contribuir com o desenvolvimento dele.

Qual o seu Estilo Parental? Faça o teste abaixo:

Vamos tentar descobrir qual Estilo Parental está mais próximo do seu? Segue abaixo um teste para ajudá-lo a identificar como estão seus comportamentos e atitudes como cuidador.

Assinale abaixo os itens que mais se adequam ao seu dia-a-dia:

Estilo 1

( ) Tem regras rígidas que devem ser seguidas à risca e nunca mudam.
( ) Disciplina é punir, colocar de castigo ou bater. Palmadas são necessárias, você também foi criado assim.
( ) Seu filho não tem direito a opinião, afinal de contas, você é o pai e sabe o que é melhor para ele.
( ) Não há necessidade de explicar para seu filho o porquê de fazer determinada atividade, ele tem que obedecer sempre.
( ) Não há a necessidade de abraços, beijos ou dizer que ama seu filho o tempo todo, pois isso vai lhe deixar mimado.

Estilo 2

( ) Não há regra nenhuma para seu filho seguir ou qualquer limite, pois você tem pouco tempo com ele.
( ) Seu filho deve ser responsável. Não há necessidade de recompensá-lo ou punir seu comportamento.
( ) Você não tem muito tempo e sustentar seu filho é mais importante do que saber o que ele pensa.
( ) Não há conversas entre pais e filhos.
( ) Os beijos e abraços são raros. O seu filho sabe que você o ama.

Estilo 3

( ) Há poucas regras. Seu filho precisa de liberdade para crescer.
( ) Para evitar que seu filho chore ou que haja discussões, você sempre acaba cedendo e dando o que ele quer.
( ) É seu filho quem manda. Você faz tudo o que ele quer. Ele não deve se aborrecer.
( ) Quando está aborrecido com seu filho, não diz a ele, pois ele só precisa saber de sentimentos felizes.
( ) Abraçar, beijar, dizer que ama o filho, são uma prática frequente, pois você considera extremamente importante ele se sentir amado.

Estilo 4

( ) As regras e limites são estabelecidos de forma clara ao seu filho, sendo explicado a ele cada uma delas.
( ) Para disciplinar é necessário apontar os comportamentos inadequados, sem punição, assim como elogiar e recompensar os comportamentos adequados.
( ) Você conversa com seu filho, explica a ele as consequências dos comportamentos e também escuta a sua opinião.
( ) Você se comunica frequentemente com seu filho, sabe de suas necessidades e pensamentos e quando necessário ajusta alguma regra.
( ) As demonstrações de carinho são frequentes. Você brinca e se diverte com seu filho.

Veja qual é o seu estilo parental:

Estilo 1: Estilo Autoritário. Alto nível de exigência e pouca responsividade. São pais que impõem regras inflexíveis e demonstram pouco ou quase nenhum afeto. Geralmente os filhos apresentam características
maiores de isolamento e ansiedade. Podem se tornar submissas, com baixa autoestima e dificuldades maiores de socialização.

Estilo 2: Estilo Negligente. Pouca exigência e responsividade. São pais que não estabelecem regras e limites e não demonstram afetividade e interesse pelos filhos. É o estilo que mais traz consequências negativas para a criança. Os filhos geralmente apresentam desempenho escolar ruim, problemas de
comportamento, baixa autoestima e não se acham capazes de fazer nenhuma atividade.

Estilo 3: Estilo Permissivo. Pouca exigência e muita responsividade. São pais que estabelecem poucas regras e são muito afetivos. As crianças geralmente têm mais dificuldade para lidar com frustrações, podem ser mais intolerantes com regras e limites ou se julgarem incapazes.

Estilo 4: Estilo Autoritativo. Nível de exigência e responsividade adequados. São pais que estabelecem regras e limites e demonstram afetividade e interesse pelos filhos. É o melhor estilo parental e que traz mais benefícios à criança.

Referência:

Weber, L. Eduque com carinho: equilíbrio entre amor e limites. Curitiba: Juruá, 2012.

Você sabe lidar com as emoções das crianças?

Precisamos ensinar a criança sobre suas emoções e, para isso, é necessário permitir, validar o que ela está sentindo. O sentimento da criança precisa ser acolhido, senão mostramos para ela que o que ela sente não tem valor.

* Por Carolina Conti

Desde pequenos somos capazes de aprender a cuidar da nossa saúde emocional. E os pais ou responsáveis são modelos e podem e devem ajudar as crianças a fazerem isso.  Mas como?

As emoções são manifestações corporais que ocorrem na interação entre a criança e seu ambiente. Elas nos ajudam na sobrevivência e nas dificuldades do dia a dia. Tudo o que sentimos é natural do ser humano, mesmo aqueles sentimentos mais incômodos, como a raiva, o medo, a tristeza… Esses sentimentos sinalizam para o nosso corpo que é hora de usar alguns recursos para enfrentar situações. Por exemplo, diante de um perigo iminente, sentimos medo e apresentamos respostas fisiológicas e comportamentais devido à antecipação a esse perigo. Ficamos mais alertas à situação e muitas vezes precisamos fugir para não nos colocarmos em risco.

Ao invés de falar “não precisa ficar triste” ou “você não pode ficar bravo com seu irmão”, por que não usamos “percebo que você está mais calado e que está triste” ou “entendo que está bravo, mas bater machuca o seu irmão”? Muitas vezes o que precisa ser limitado é o comportamento da criança, caso este seja indesejado ou inadequado.

Outro ponto importante é criar oportunidades para a criança estabelecer relações sociais e interagir com pessoas variadas, aprender a resolver problemas e lidar com a frustração. Dessa forma, ajudamos nossas crianças a desenvolverem um repertório social e emocional mais forte e saudável.

Agora, para ensinar isso às crianças é preciso saber e fazer. Já ouviu aquela frase “a palavra convence, mas o exemplo arrasta”? Então, os pais que priorizam sua saúde física e emocional, mantém uma boa alimentação e cultivam boas relações, serão modelos importantes no cuidado da saúde emocional.

E você, acolhe suas emoções?

Carolina Conti -Psicóloga Infantil – CRP 04/29510